A identidade de um treinador é um misto de várias «coisas». Um misto dos seus valores de trabalho, daquilo que gosta de implementar nas suas equipas, o modo como faz o seu trabalho, a sua filosofia de jogo, de ideias e de regras coletivas. Para lá deste conhecimento, a flexibilidade e capacidade de se adaptar a contextos distintos, não apenas na dimensão dos projetos como dos contextos competitivos, exigência e expectativas.

Tal como muitos jogadores falham nas mudanças de um clube para outro clube, não perdendo qualidade técnica, física ou tática, também muitos treinadores falham no tal salto qualitativo de projeto para projeto. E não acredito que seja «apenas» por falta de conhecimentos para responder às exigências. Muitas vezes falha-se porque a sua filosofia de trabalho e de ideias de jogo estão adaptadas ou totalmente focadas para determinados contextos e o treinador não está disposto ou não consegue transferi-las para outros contextos.

E aí não é apenas o contexto de uma equipa pequena para equipa média ou média para grande. Também pode surgir o inverso. A história está cheia de situações em que treinadores «desaparecem» no momento de mudança. Em que ficam visíveis a incapacidade de adaptação e de ler o «jogo» que se joga fora das quatro linhas. De não compreender a cultura do clube. Dos próprios jogadores que têm modos de funcionamento diferentes.

Estes dados deveriam ser alvo de dois tipos de análises: dos próprios treinadores ao trabalharem questões fundamentais no modo como se posicionam nestas alterações de equipa para equipa; e por parte dos clubes, que na procura de um novo treinador, se foquem para lá daquilo que são as suas ambições desmesuradas de ser tudo e ter o todo.

Acredito que todas as épocas nos darão exemplos positivos e menos positivos desses. Cabe-nos analisar e ir colecionando dados para podermos perceber que nisto do desporto, não existindo a tal ciência exata, há coisas que mais vezes correm bem do que mal.