Luís Castro: o que podem esperar dele

Viagem à carreira do treinador que rende Paulo Fonseca, e a opinião de quem o conhece

Por Berta Rodrigues       6 de Março às 11:22
Luís Castro: o que podem esperar dele
Luís Castro fez um longo caminho até chegar ao banco da equipa principal do FC Porto. Quem o conhece acredita que está «à altura do desafio» e vai fazê-lo com a mesma atitude «seja para um, seja para mais jogos». É a garantia de um companheiro do início da caminhada do técnico que sucede a Paulo Fonseca no banco dos dragões, sem que o clube tenha deixado claro até quando: para já, ficou-se pela expressão «interino».

Não é um regresso ao banco, porque esta época Luís Castro voltou a vestir a pele de treinador. No clube desde 2006 como coordenador técnico da formação, assumiu no início da temporada o comando do FC Porto B. Quando já se jogaram 32 jornadas, lidera o campeonato.

No princípio estava Luís Simões. Conheceu Luís Castro quando ambos começavam a formação de treinadores, nos cursos da Associação de Futebol de Aveiro, no final dos anos 90. Luís Castro tinha sido jogador, central e defesa-direito, mediano. Vieirense, U. Leiria, a seguir V. Guimarães, depois O Elvas e por fim o Águeda, onde foi capitão durante sete anos, como recordou o Maisfutebol em 2005, num extenso trabalho sobre aquele que era então treinador do Penafiel. «Ele era capitão, porque era uma pessoa com princípios. Sabia ouvir os colegas, era amigo de todos, possuía uma formação acima da média, era culto, tinha uma personalidade forte, gostava de dar a sua opinião, em suma, era um líder», explicou então Vítor Pontes, seu antigo companheiro de equipa.

Para trás tinha ficado uma doença na infância, uma doença no sangue que lhe limitou o início da adolescência. «A minha força interior para ultrapassar os problemas vem desde período. A doença ajudou-me a não vacilar em certos momentos », contou Luís Castro.

Quando terminou a carreira seguiu-se a opção pelo treino, ainda que pelo meio tenha continuado os estudos: frequentou a licenciatura em Física na universidade de Coimbra. Foi no Águeda que deixou de jogar e foi lá que começou a treinar. Em part time, de dia trabalhava como vendedor: «O pai de duas filhas não podia esperar o dia todo pelo treino das sete da tarde.»

Começou por treinar as camadas jovens, antes de subir aos seniores. Chegou a treinador principal, subiu à II Divisão B mas na época seguinte acabou por sair do Águeda – o único clube de onde foi despedido -, e foi aí que entrou em cena Luís Simões. «Em 2000/01 eu era diretor desportivo do GD Mealhada, convidei-o para ir treinar o clube», conta agora Simões, atual treinador do Anadia e um homem que Luís Castro diz ter sido fundamental no seu crescimento, ao Maisfutebol.

Como profissionais nos amadores (mais ou menos)

«Vi na altura aquilo que ainda hoje se nota. É uma pessoa de grandes convicções e que acredita muito naquilo que faz. É uma das muitas qualidades que lhe permitiram chegar a este patamar. É um homem de grandes convicções, extremamente simples e humilde», observa Luís Simões: «Muito trabalhador, muito sério, prepara bem tudo o que faz.»

Luís Castro tinha um discurso e uma abordagem diferentes, diz Luís Simões: «Mesmo nestes clubes amadores ele dizia que nós podíamos trabalhar de forma muito profissional. É uma posição muito forte, que une muito o grupo. Dizer: somos amadores, mas podemos trabalhar como profissionais.»

Sem formação académica em Educação Física, Luís Castro leu muito, estudou muito, fez-se pela experiência. Mesmo que as condições não fossem exatamente as do futebol profissional, ele inovava. Um episódio com um sorriso, do tempo do Mealhada.«Recolhia dados com um ou outro colega, ia ver um ou outro jogo e colava informações sobre a equipa adversária na parede do balneário. Ao longo da semana os jogadores iam lendo aquilo. Às vezes, inventávamos porque era impossível ver todos os adversários e aquelas folhas já faziam falta aos jogadores. Tinham um efeito psicológico», contou o próprio Luís Castro. Hoje, ao recordar essa história, Luís Simões sorri: «Aconteceu algumas vezes. Sempre que jogamos contra um adversário o objetivo é conseguir obter o maior volume possível de informação sobre esse adversário. Mas há sempre questões que são comuns e podemos usar. Serve para o jogador se sentir mais confiante para o que vai acontecer.»

Luís Castro constrói uma relação forte com os jogadores. No já referido trabalho do Maisfutebol, Clayton resumia assim abordagem daquele que foi seu treinador no Penafiel: «Conhece bem cada um de nós. Sabe a quem pode berrar e a quem deve sorrir, porque nem todos os jogadores podem ser estimulados da mesma forma.»

«Direto, sem subterfúgios»

Luís Simões conta o que podem esperar dele os jogadores do FC Porto: «Ele é uma pessoa muito séria, honesta e direta. Acho que os jogadores apreciam isso. De forma geral, ninguém gosta de ser enganado. Diz claramente o que espera deles, a relação com os jogadores é séria. Sabem sempre com o que podem contar. Nunca há dúvidas nenhumas no relacionamento. Os jogadores do FC Porto podem contar que vão ter um treinador direto, sem subterfúgios e sem truques.» 

Continuando a viagem. Ao Mealhada seguiu-se o Estarreja, Luís Simões acompanhou Luís Castro, como adjunto. Desse tempo, a recordação de um jogo para a Taça em Alvalade, que chegou a estar empatado, mas que o Sporting venceu. «Antes do jogo apareceu uma página da minha equipa em A Bola, no Record e em O Jogo. No final, fui à sala de imprensa, só me fizeram uma ou duas perguntas e um repórter de uma rádio disse em directo que o Luís Castro teve o seu minuto de fama», recordava o treinador. Uma frase que lhe serviu de motivação para o futuro.

O momento de fama que se seguiu aconteceu na Sanjoanense, a sua etapa seguinte, quando eliminou o Gil Vicente na Taça de Portugal. A abordagem de Luís Castro foi esta: «Contei aos meus jogadores a doença que tive quando era pequeno. Aquele era um momento alto, era a altura oportuna para o fazer. O treinador deles tinha ultrapassado o problema mais difícil da vida dele. Portanto, eles também podiam ultrapassar o Gil Vicente que não era mais difícil do que uma doença. Tinha a convicção de que íamos ganhar em Barcelos.»

Nem sempre resultou. Na época 2004/05, já no Penafiel, tentou a mesma abordagem. «Falei ao grupo da minha doença antes de jogarmos frente a um grande. Mas perdemos...», contava então, sem problemas em assumir a história. 

No discurso público, Luís Castro revelou com frequência humor e fair play. Em 2005, quando terminava o curso UEFA Pro, falava assim sobre o curso de nível III, noutra reportagem do Maisfutebol: «No ano passado tive muito bom. O meu adjunto Luís Simões ficou em primeiro e eu em segundo. Ainda cheguei a pensar ser ele o treinador principal e eu passar a adjunto, mas o Penafiel não aceitou isso.»

O Penafiel foi o seu grande desafio antes do FC Porto. Em 2004, ao fim de três jornadas da Liga, o clube despediu Manuel Fernandes e a escolha de António Oliveira, então presidente, recaiu em Luís Castro. Uma aposta de risco, recorda Luís Simões: «Nós saltámos da Sanjoanense, na II B, para a Superliga, o que não é muito comum. É um salto enorme.»

«Havia dúvidas se estaria à altura do desafio. Na altura alinhavam lá o Folha, o Drulovic, o Clayton, o Fernando Aguiar, jogadores que tinham um passado atrás de si. Isso não representou um obstáculo para ele», recorda Luís Simões. 



Mas Luís Castro superou as expectativas na primeira época, quando o Penafiel terminou na 11ª posição. Na temporada seguinte, depois de saírem vários dos jogadores mais importantes, a equipa não conseguiu a manutenção. «Foi uma época difícil a todos os níveis», recorda Luís Simões. «Mas nunca perdemos a confiança do presidente. Estivemos até ao fim da época com plena confiança do presidente, da direção e dos jogadores. Só uma relação muito frontal, séria e honesta permitiu que, com estas dificuldades todas, nos mantivéssemos até ao fim.»

Depois do Penafiel, Luís Castro não chegou a ficar parado. No verão de 2006 foi anunciado como coordenador da formação do FC Porto, cargo que ocupa até hoje, esta temporada em acumulação com a equipa B. Agora, aos 52 anos, chega à equipa principal.

Luís Simões está seguro da competência do amigo para a tarefa. «Não tenho grandes dúvidas de que não só o Luís Castro está preparado para assumir a equipa até ao final da época como para poder ser uma solução de futuro», analisa: «Eles vão buscar uma pessoa que conhecem bem. O Luís Castro possui todas as qualidades para estar à altura do desafio.»

«Tenho a certeza que vai estar à altura do desafio. Uma das características dele é encarar cada desafio como uma provação», prossegue, acreditando que Luís Castro está preparado para vários cenários nesta altura: «Ele respeita muito o FC Porto. Seja de forma provisória, seja até ao final da época ou para continuar depois disso, o empenho dele vai ser total. Não vai estar mais ou menos motivado por ser interino ou treinador em definitivo.»

«Seja por quanto tempo for, vai ser competente. O pensamento dele é: contem comigo. Não vai estar a pensar por quanto tempo será. O empenho dele é a 100 por cento. Não se deixa abalar pelo facto de poder ser por um jogo, 10 ou 20», acredita.

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