É o duelo com direito a mais sequelas na história do futebol espanhol e, provavelmente, o que aglutina mais episódios rocambolescos.

Sátira, provocação, maniqueísmo, condimentos imperativos na essência de um jogo que ultrapassa os limites do campo e salta para o âmago da sociedade.

Falar de Real Madrid e Barcelona obriga-nos a enunciar dois dos nomes sagrados nas escrituras de cada um dos emblemas. Santiago Bernabéu nos blancos, Joan Gamper nos blaugrana.

Mas há mais, muitos, não fosse este, quiçá, o mais rico dos confrontos no desporto-rei. Real Madrid e Barcelona precisam, no fundo, um do outro para sobreviver. Alimentam-se mutuamente e contribuem indiretamente para o crescimento exponencial do arqui-rival.

Artistas? Tantos, tão bons. Veneráveis.

Alfredo Di Stéfano, Amancio, Emílio Butragueño, Vicente Del Bosque, Gento, Hugo Sanchez, Martin Vasquez, Michel, Ferenc Puskas, Raul, Santillana, Manuel Sanchís, Stielike, Jorge Valdano e Zinedine Zidane, só no Real Madrid.

Paulino Alcantara, Ricardo Zamora, Ladislao Kubala, Johan Cruyff, Carles Rexach, Diego Armando Maradona, Ronald Koeman, Hristo Stoichkov, Romário, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo, no Barcelona.

Luís Figo, Ronaldo Fenómeno, Luís Enrique, Michael Laudrup, Luis Milla e Samuel Eto’o dos dois lados.

Três parágrafos só para mestres. E nem tivemos de mencionar os nomes de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi.

Quando, a 6 de março de 1902, Real e Barça dividiram pela primeira vez um campo de futebol, ninguém imaginaria que escreviam apenas e só o capítulo inicial de uma enciclopédia privada e de acesso restrito. Nesse primeiro clássico venceram os de Barcelona por 1-3.

A lista de portugueses que tiveram o privilégio de viver por dentro El Clásico inclui Vitor Baía e Carlos Secretário. Ao Maisfutebol, os antigos internacionais portugueses recordam a passagem por Barcelona e Real Madrid, respetivamente.

Vitor Baía defendeu quatro vezes a baliza do Barcelona contra o Real Madrid. Todas na temporada 1996/97. Ganhou dois jogos (3-2 na Taça do Rei e 1-0 no campeonato), empatou um (1-1 na Taça do Rei) e perdeu outro (2-0 no campeonato).

«O que me recordo, acima de tudo, é que nos dias anteriores aos jogos as conversas iam para além do futebol. A questão da independência da Catalunha, por exemplo, ficava mais viva do que nunca», conta o ex-guarda-redes de FC Porto, Barça e Seleção Nacional.

«O lema do Barcelona, Més que un club, reflete a essência das suas gentes. A relação entre o adepto e o emblema é de amor puro, devoção total. E esses sentimentos são exacerbados ao quadrado sempre que o Real Madrid está do outro lado. Vivi isso tudo na primeira pessoa».

Baía acrescenta, aliás, não ser excessivo falar em ódio. «Não, não é excessivo e, de resto, é recíproco. Basta ler o tratamento que os jornais dão a toda a informação relacionada com o jogo. Até os jornalistas vestem a camisola, sem pruridos».

«Só os espanhóis entendem a dimensão disto», conclui Vitor Baía.

Todos os golos do Clássico entre 1984 e 2014:

Em dois dos quatro jogos de Baía esteve Secretário. Do outro lado. O lateral direito fez 90 minutos pelo Real Madrid a 7 de dezembro de 1996 (2-0) e mais 35 (entrou e saiu) no 1-1 a 5 de fevereiro de 1997.

«Recordo-me de uma vez que fui jogar a Barcelona e à chegada os adeptos partiram-nos os vidros do autocarro. Mas o Clássico que me deu mais gozo jogar foi o Real Madrid-Barcelona que ganhámos 2-0», conta o antigo defesa.

«Houve adeptos que ficaram dois e três dias nas filas para comprar bilhete. E nessa altura estava um frio de rachar. É nestes jogos que se vê a devoção dos adeptos ao clube».

O jogo de sábado realiza-se em Madrid. Secretário considera que em Barcelona a atmosfera é sempre mais pesada.

«Tudo é vivido de forma mais intensa, porque há questões políticas, relacionadas com a independência da Catalunha, que os adeptos levam para o estádio e o jogo, para eles, ganha outros contornos».

Agora à distância, Vitor Baía diz-se dividido: «joguei com o Luís Enrique, agora técnico do Barcelona, e com o Xavi. Mas do lado do Real está o Pepe, meu colega no FC Porto, além do Cristiano Ronaldo e do Fábio Coentrão. Desejo que seja um jogo bonito e com muitos golos».

Dez momentos definidores da rivalidade Real-Barça

1. Alfredo Di Stéfano esteve quase a assinar pelo Barcelona. O presidente dos catalães em 1953, Enric Marti, chegou a acordo com o River Plate, mas os direitos desportivos pertenciam ao Milonarios, da Colômbia. Foi com esse clube que o Real Madrid negociou. O conflito chegou à FIFA. O organismo determinou que Di Stéfano jogasse as épocas 1953/54 e 1955/56 pelo Real Madrid e as de 1954/55 e 1956/57 pelo Barça. Os clubes chegaram a acordo, mas no final o Barcelona desistiu.

2. Época 1960/61, o Real Madrid dono e senhor de cinco troféus consecutivos na Taça dos Campeões Europeus. Nos oitavos de final da sexta campanha defronta o Barcelona. Em Madrid empatam 2-2 e em Barcelona ganham os catalães por 2-1. Foi a primeira eliminação do Real nas provas europeias.

Barcelona-Real Madrid em 1960

3. Chuva de garrafas na final da Taça do Rei em 1968. O Real Madrid perde por 0-1, autogolo de Zunzunegui, mas acaba o jogo a queixar-se da «vergonhosa arbitragem» do senhor Antonio Rigo. Depois deste jogo passou a ser proibida a entrada e venda de garrafas de vidro nas bancadas de estádios espanhóis.

Real Madrid-Barcelona em 1968:

4. Invasão do relvado do Camp Nou. 1969/70, o árbitro assinala erradamente uma grande penalidade contra o Barcelona. Amancio marca para o Real Madrid e o público catalão não suportou a afronta.

5. Supertaça de Espanha, 1990. Hristo Stoichkov pisa o árbitro Urizar Azpitarte, de cabeça perdida. O Real Madrid ganhou por 0-1 e Hugo Sanchez acabou o jogo agarrado aos genitais. E a dedicar o gesto aos adeptos catalães, claro.

6. Manita para um lado, manita para o outro. O Dream-Team treinado por Johan Cruyff vence 5-0 com um hat-trick de Romário, na época 1993/95, o Real responde com a mesma marca e três golos de Ivan Zamorano no ano seguinte. Michael Laudrup, curiosamente, participa nas duas goleadas do lado vencedor.

7. 1999/2000, Raul silencia o Camp Nou e o seu dedo indicador ficou famoso. O avançado do Real inaugurou o marcador, Rivaldo e Luís Figo deram a volta, e Raul voltou a bater Ruud Hesp. Silêncio impressionante no coliseu catalão.

8. Luís Figo, ídolo e vilão. A plateia catalã não aceita nem compreende a mudança do internacional português para Madrid. No reencontro há de tudo um pouco: tarjas com a inscrição de traidor e pesetero, insultos e o lançamento de uma cabeça de leitão.

9. 19 de novembro de 2005. Baile de futebol orquestrado por Ronaldinho Gaúcho em Madrid. Marca dois golos, dá um a Etoo e acaba ovacionado pelos adeptos do Real Madrid. Uma cena raras vezes vistas nesta relação tão atribulada.

10. José Mourinho e o saudoso Tito Vilanova pegam-se no auge do conflito entre o português e Pep Guardiola. As imagens correm todo o mundo: o dedo de Mourinho no olho de Tito. Caliente!

Para o fim, o Maisfutebol reúne cinco jogos inesquecíveis do Super Clássico no século XX.

Melhor do que isto não há.

13 de junho de 1943: Real Madrid-Barcelona, 11-1

Há quem garanta que a rivalidade se extremou depois deste jogo. O Barcelona vencera 3-0 na Cidade Condal e os de Madrid queixaram-se do ambiente pesado. Na segunda-mão da Copa del Generalísimo o Real marca 11 golos e vinga-se com um sorriso nos lábios. Das bancadas, rezam as crónicas, choveram todos os tipos de objetos em direção dos catalães.

Juan Antonio Samaranch, posteriormente presidente do Comité Olímpico Internacional, deixou de ser jornalista depois de escrever a crónica do jogo.

25 de outubro de 1953: Real Madrid-Barcelona, 5-0

Di Stéfano chega e esmaga o Barça com dois golos. Chamartin fica a conhecer o Saeta Rubia que, ironia das ironias, tinha estado meses antes com um pé no Barça. Roque Olsen (2) e Luís Molowny marcam os restantes ao guarda-redes Juan Velasco.

17 de fevereiro de 1974: Real Madrid-Barcelona, 0-5

O Chamartin rende-se a Johan Cruyff. «Depois do quinto golo só se escutava o silêncio o barulho das chuteiras na bola». O holandês fez um dos golos e encheu o campo com uma lição de técnica e inteligência. Asensi (2), o peruano Sotil e Rexach marcaram os restantes golos.

8 de janeiro de 1994: Barcelona-Real Madrid, 5-0

Quem não se lembra da vírgula aplicada por Romário a Alkorta? O avançado dos desenhos animados, como lhe chamava Jorge Valdano, inscreveu para a eternidade o nome nestes combates. Fez três golos e ainda deixou mais dois para Ivan Iglésias e Ronald Koeman.

7 de janeiro de 1995: Real Madrid-Barcelona, 5-0

Jorge Valdano devolve a gentileza a Johan Cruyff. 41 anos depois, o Real voltou a aplicar uma manita ao Barça. Ivan Bam-Bam Zamorano reclama os louros de uma noite perfeita para los blancos. O chileno balança três vezes a baliza defendida por Carlos Busquets. Luís Enrique (sim, o agora treinador do Barça) e Amavisca completaram a goleada.