Ponto prévio: coloquem-se de parte jogos particulares, jogos de solidariedade e simples tentativas de bater o recorde do mundo. Atualmente, já agora, o livro do Guiness estipula como o mais longo de futebol de sempre aquele que aconteceu em Edimburgo de 4 a 8 de julho do ano passado. Foram 105 horas com objetivo claro: bater o recorde e angariar fundos para uma fundação de apoio a crianças doentes.

Mas esse é outro campeonato. A efeméride que esta quarta-feira se comemora diz respeito ao jogo oficial de futebol que durou mais tempo. Com caráter competitivo e sem qualquer propósito de estabelecer uma nova marca. Simplesmente aconteceu…

E este «aconteceu» tem data. A 30 de março de 1946, na final da Taça da Liga da III Divisão Inglesa, o Stockport County, campeão da zona Oeste, e o Doncaster Rovers, campeão da zona Este, digladiaram-se ao longo de umas impensáveis 3 horas e 23 minutos.

Mas então o futebol não foi sempre jogado em períodos de 90 minutos e prolongamentos de meia hora? Não, claro. Aliás, por esta altura, ainda antes de serem inventados os desempates por penáltis, os prolongamentos até eram mais curtos: duas partes de dez minutos. A partir daí funcionava o regime de morte súbita ou golo de ouro, conforme as preferências.

Enquadrando o jogo. Tal como era habitual na altura, as finais disputavam-se a duas mãos. Se, no final dos dois jogos, não existisse ainda uma equipa superior à outra, haveria lugar a uma finalíssima, em campo destinado pela sorte. Contudo, ainda com a II Guerra Mundial bem presente no panorama europeu, os responsáveis ingleses decidiram poupar uma das equipas de um terceiro jogo, que implicaria deslocações, gastos e riscos desnecessários. Assim, deu indicações ao árbitro para aplicar o sistema de golo de ouro caso não houvesse vencedor no final do tempo regulamentar e do prolongamento.

A primeira mão tinha terminado empatada a dois golos e a segunda, jogada no Edgeley Park de Stockport, terminou com o mesmo resultado.

Allan Edwards, adepto do Stockport County, foi um dos 13 mil espectadores desse jogo que ficou para a história e contou o seu relato ao site «Vital Football».

«O Stockport começou bem e conseguiu um penalti logo aos cinco minutos, que foi convertido. Mas depois o Doncaster ficou por cima e ao intervalo já ganhava 2-1. Na segunda parte a equipa mais dominadora voltou a ser o Stockport que empatou o jogo. Continuaram a atacar mas não veio o golo da vitória no tempo regulamentar. Os vinte minutos de prolongamento também não trouxeram novidades», descreveu.

Pelas referidas alterações às normas vigentes, entrava, então, em ação o regime de morte súbita. Quem marcasse vencia. Era o início da mais longa maratona oficial do futebol…

 

O cartaz do jogo da primeira mão

Houve quem trocasse o jogo por um chá em casa, voltando mais tarde

Quando terminou o prolongamento, o árbitro ordenou aos jogadores que deixassem o relvado, o que confundiu os espectadores. Afinal, a notícia de que teria de haver um vencedor naquela tarde de sábado já se tinha espalhado e estavam todos à espera de ver mais futebol.

Além disso, o golo não haveria de tardar… «Ainda houve gente a entrar no relvado e perdeu-se algum tempo a deixá-lo novamente livre para que o jogo pudesse retomar, quando os jogadores regressaram», recorda Allan Edwards.

Tempo que se viria a revelar precioso, embora sem garantias nenhumas. Se, mais de três horas depois do apito inicial, as equipas ainda continuavam empatadas, como garantir que seria diferente com o tempo perdido a «limpar» o terreno de jogo?

A verdade é que a sucessão de períodos de meia hora que se seguiu ao prolongamento formal e, findos os quais as equipas trocavam de campo, teve sempre o mesmo desfecho: nem um golo.

Os relatos da época contam uma peripécia engraçada: alguns adeptos desistiram do jogo, foram a casa tomar chá e lanchar, mas, reparando que ainda não tinha terminado, acabaram por voltar e assistir aos momentos finais.

E quando a bola entrou…não contou

Allan Edwards garante que, mesmo sem golos, e com os jogadores completamente de rastos (jogaram o equivalente a mais de dois jogos seguidos) o período da morte súbita foi agradável de seguir.

«O jogo continuava e continuava e continuava...até ao infinito», brinca. «Poderia ter sido ganho por qualquer uma das equipas. O Shaw [jogador do Stockport que marcara os dois golos no tempo regulamentar] teve três oportinidades que normalmente não falhava, mas o guarda-redes defendeu. E eles [Doncaster] também tiveram oportunidades», conta.

Mas a mais soberana de todas perteceu mesmo à equipa da casa, quando Les Cocker, no minuto 173…marcou! Porém o golo foi anulado, porque o árbitro viu uma falta no lance. «Até alguns jogadores do Doncaster protestaram porque estavam fartos daquilo. Todos queriam ir embora. Parecia que estavam a jogar há dias», ilustra Allan Edwards.

Com o aproximar das 19 horas vinha um novo problema: a noite começava a cair e o estádio não tinha iluminação artificial.

«Quando o jogo chegou às três horas, o árbitro começou a olhar muito para o relógio. Na minha bancada diziam, como piada, que ele estava a controlar o tempo para apanhar o último comboio do dia para Crewe. Outro atirou que estava era a tentar bater o recorde do jogo mais longo», comenta.

A verdade é que, propositadamente ou não, conseguiu-o. Pouco depois das sete da tarde, o jogo foi interrompido por falta de visibilidade. O mais longo jogo oficial da história do futebol durou três horas e vinte e três minutos e terminou empatado.

Ainda houve tempo para moeda ao ar de modo a decidir onde se jogaria a finalíssima. Aí venceu o Doncaster. No jogo de desempate também. E com goleada de 4-0. Em 90 minutos.