Faltam duas horas para começar o jogo. Gerd Mewes chega ao balneário e recebe uma notícia terrível: «Encontrámos droga na posse do Hans (nome fictício). O diretor afastou-o da equipa de futebol. Pediu-me que o informasse».

Herr Mewes está habituado a estas baixas de última hora. Tem 70 anos e treina o Eintracht Fuhlsbuttel. «Problemas? Bem, estamos no primeiro lugar e a lutar pela subida. O campeonato parou agora, mas não me queixo. Os rapazes dão tudo em campo».

O Eintracht não é um clube qualquer. Todos os futebolistas são reclusos de um Estabelecimento Prisional na região de Hamburgo. Através de uma rede social, o treinador fala ao Maisfutebol e explica a especificidade de uma função rara: treinar homens condenados.

«Os bons resultados desta época chamaram a atenção dos jornais, mas o clube compete há muitos anos. Costumo dizer que tenho um dos cargos mais interessantes do futebol alemão», explica Gerd Mewes, no inglês possível.

Os relatos sucedem-se. Há mais histórias do que questões do jornalista.

CLASSIFICAÇÃO DA 12 KREISKLASSE
 
O episódio que abre a reportagem, aliás, é recente.

«Sim, foi antes do último jogo que fizemos. Ganhámos 6-0 [ao HT 16]. Eu só entro na cadeia duas vezes por semana. Uma vez para o treino, às quartas, e uma vez para o jogo, ao domingo de manhã. Mas não me posso esquecer que os meus jogadores e o meu adjunto estão encarcerados».

Gerd Mewes ostenta um longo percurso no futebol. No currículo tem vários clubes alemães de pequena e média dimensão. O Eintracht Fuhlsbuttel surge quando já decidira reformar-se.

«Vivo perto, tinha pouco de fazer e os responsáveis pela secção de futebol da prisão convenceram-me. E cá estou, já há muitas temporadas».

«O meu adjunto esfaqueou o primo no pescoço»

Traficantes, assassinos, ladrões, todos criminosos, todos no mesmo balneário. Gerd Mewes não quer conhecer o passado dos seus futebolistas, apenas está interessado no que lhe dão nas duas horas do treino e nos 90 minutos do jogo.        

«Olho para eles só como futebolistas. Recuso saber o que fizeram para estar na cadeia. Trato-os como homens, pelo primeiro nome, peço-lhes respeito pelo jogo e pelos adversários. Tem corrido bem».

Sempre bem?

«A violência não é tolerada. Quem não adere a este código de conduta é afastado. Eles sabem que é um privilégio fazer parte da equipa. São uma minoria. Por isso, posso dizer que tudo corre quase sempre bem, sim», responde o treinador Gerd Mewes.

Reportagem sobre o Eintracht Fuhlsbuttel na televisão alemã:


Há um caso especial, uma exceção: o treinador adjunto, braço direito de Mewes. O veterano técnico confia nele para vigiar o comportamento dos atletas ao longo da semana. Por isso, quis saber um pouco mais da sua vida.

«Fiquei chocado. É um homem normal, calmo. Está preso por ter esfaqueado o primo no pescoço. O rapaz morreu. O meu assistente não tinha antecedentes criminais, trabalhava e tinha família. Cometeu um erro gravíssimo, mas é um bom homem».

«Indiquei um rapaz ao Hamburgo. Saiu da prisão e joga lá»

O Eintracht Fuhlsbuttel efetua todos os jogos em casa. No pátio da cadeia, um piso de terra batida com as medidas regulamentares para a prática do futebol.

Equipas visitantes e árbitros sabem que têm de transpor o portão principal para defrontar o líder da Série 12 da Kreisklasse. Isto sim, é pressão.

«Compreendo a observação. Em nossa defesa, digo que há campos no futebol de Hamburgo bem piores. Nunca tive problemas graves com adversários. Aliás, os meus únicos episódios tristes foram vividos entre mim e dois jogadores. Ameaçaram-me, quiseram roubar-me. Foram afastados».

Duas histórias radicalmente distintas encerram a conversa. Primeiro, a boa.

«Indiquei um rapaz de 23 anos, bom central, aos responsáveis do Hamburg SV. Saiu em liberdade, foi lá treinar e está na equipa de reservas. Fico feliz, espero que ele se afaste das más companhias».

Para o fim, a má.

«Tive um jovem nigeriano, um portento de força. Foi libertado e não soubemos mais dele. 26 dias depois apareceu morto. Levou um tiro durante um assalto».