O hat-trick de Jonas ecoou da Covilhã a Taiúva. Ali, no interior profundo e tantas vezes esquecido de São Paulo, a família Gonçalves Oliveira voltou a cerrar os punhos e a abraçar o filho ilustre.

«Não perdemos um jogo dele. Vemos tudo pela televisão ou internet. Estes golos não são uma surpresa».

Tiago Oliveira, o irmão mais velho, é o porta-voz na conversa com o Maisfutebol. Uma conversa que começa nas cercanias da Serra da Estrela, mas que regride rapidamente à infância do avançado do Benfica.

JONAS NA INFÂNCIA: o campinho, a canja e o polo aquático

 

Jonas é um goleador sem a escolaridade obrigatória. Saltou etapas de formação, ensinamentos básicos e levou o talento diretamente para os seniores do Guarani. «Ele fez um único ano nas camadas jovens. Só perto dos 20 anos foi jogar para o Guarani. Esse foi o primeiro contato dele com o futebol a sério», conta Tiago Oliveira.

E até aí, como era a relação de Jonas com o desporto-rei? «Fazia jogos com amigos, participava em partidas do clubezinho da nossa cidade, mas tudo a um nível essencialmente lúdico, por diversão. Felizmente surgiu na vida dele o senhor Donizete Lima».

«Saudades de casa e do biscoitinho da mãe antes de dormir»

Donizete Lima, nem mais.

Se não fosse este olheiro do Guarani, Jonas estaria agora atrás de um balcão de farmácia. «É verdade, ele seguiu esse curso na universidade e ajudou muitas vezes o Diego [irmão do meio], que também é farmacêutico. Mas o senhor Donizete não desistiu», indica Tiago. 

O atual treinador do São José [de Amapá, na fronteira com a Guiana Francesa] tem a história na ponta da língua e conta tudo ao Maisfutebol.

«Só à quarta tentativa o Jonas ficou no Guarani», recorda. «Eu descobri-o num torneio no interior de São Paulo e nunca mais desisti dele. Aos 13 anos ficou dois dias, aos 14 a mesma coisa, aos 16 resistiu 2/3 meses, aos 19/20 foi para valer. Ainda bem que esperei por ele».

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A versão do irmão Tiago coincide com a do senhor Donizete. «Para o Jonas não era fácil deixar o conforto da família. Vivia numa casa de classe média, a comida era boa, havia sempre um biscoitinho da mãe na hora de dormir, e estranhou perder tudo isso», conta.

Em Taiúva, cidadezinha de seis mil habitantes, Jonas tinha tudo o que precisava. Abdicar da família, do conforto e de um futuro sólido não fazia sentido. Pelo menos até a paixão pelo futebol falar mais alto.

«Numa digressão com o Guarani voltei a falar com o Jonas e o pai, o senhor Ismael: 'como é, última oportunidade: você quer ser futebolista e chegar à seleção do Brasil ou não'?», narra Donizete Lima.

«Não me enganei. O Jonas, obediente e excecional no trato, finalmente aceitou: pai, desta vez eu vou e é para ficar. Fiz muita força para isso e só posso estar orgulhoso por vê-lo tão bem no Benfica. Agora só falta o regresso à canarinha».

«No início salvou o Guarani de duas descidas»  

2005, no Guarani. Jonas inicia a relação com o profissionalismo e, consequentemente, com o golo. «Logo nesse ano ele salvou-nos de duas descidas: no Paulistão e na Série B. Estreou-se contra o Marília e marcou», recupera Donizete Lima, o pai futebolístico do atacante do Benfica.

Tiago, o irmão mais velho, tem os restantes dados na ponta da língua. De golo em golo, até uma grave lesão o atirar para o canto do sofrimento. «Ele ainda fez 12 golos e foi o segundo melhor marcador do campeonato. No final desse ano, o contrato terminou e o Santos estava atento».

Na Vila Belmiro, treinado por Wanderley Luxemburgo, Jonas apanha o maior susto da carreira. «Nessa fase era evidente a falta de formação dele, no que diz respeito à condição física. Tinha menos massa muscular do que os outros e acabou por se lesionar gravemente: sete meses parado», lamenta, quase oito anos depois, o irmão Tiago.

Golos de Jonas no Guarani:

Do Santos passa para o Grémio de Porto Alegre e, em janeiro de 2011, chega à Europa. No Valência cumpre 116 jogos oficiais e marca 51 golos. Números muito convincentes para um avançado.

Com 30 anos, Jonas chega ao Benfica «motivado e ambicioso». «Não digo que manterá a média de dois golos por jogo (risos), mas vai marcar muitas vezes», assegura Tiago Oliveira, o irmão licenciado em Direito.

Donizete Lima fecha o diálogo com a descrição de Jonas. «É habilidoso, tem uma técnica de execução perfeita dentro da área. Eu diria que a contração dele foi um golpe de mestre do Benfica».

Para Tiago, muito do que Jonas está já a fazer é da exclusiva responsabilidade de Jorge Jesus. «Eles têm uma relação fantástica. O Jesus exige muito, muito mesmo, e nesta fase da carreira o meu irmão necessita de um treinador assim».

Para Jonas, a formação no futebol limitou-se à relação íntima com o golo. O resto chegou por acréscimo, como capítulos adicionados a um livro começado à pressa. O próximo chama-se Benfica. As primeiras linhas já agarraram o leitor.