Sempre que Cristiano Ronaldo partilha um vídeo, uma foto, ou um comentário nas redes sociais, chega a números astronómicos de seguidores: 116 milhões no Facebook, 72 milhões no Instagram, e 45 milhões no Twitter. É certo que este valor está longe da audiência de qualquer outro jogador de futebol, mas os desafios que enfrenta no mundo digital são os mesmos.

Para começar, uma certeza: «Uma vez na internet, para sempre na internet». Há jogadores que já foram multados ou mesmo despedidos por coisas que escreveram online. Mas também é verdade que outros criam uma proximidade com os adeptos que, de outra forma, seria impossível. E até há quem recorra às redes sociais na altura de arranjar clube. Recorde-se que Álvaro Brachi foi contratado pelo NK Domzale após responder a um anúncio na internet e que o selecionador da Albânia no Euro 2016, para formar a seleção, andou pela internet à procura de jogadores.

É portanto normal que muitos jogadores se questionem sobre se devem ter ou não presença nas redes sociais e qual é a melhor forma de atuar na internet.

Em Inglaterra, a PFA (associação de jogadores) tem online um manual em que alerta os atletas para questões (inclusive legais) que podem surgir da utilização das redes sociais, e lhes aponta também as vantagens de as utilizar.

Em Portugal, o Sindicato dos Jogadores incluiu uma formação sobre «Redes Sociais e Promoção do Jogador» durante o estágio organizado para os profissionais desempregados.

«Temos consciência do fenómeno das redes sociais e de que, cada vez mais, são úteis na comunicação. Tivemos essa formação para que os jogadores aprendam alguns mecanismos, para as utilizar melhor, e também saibam como se precaver de alguns riscos. Vamos agora fazer ações sobre o tema com jogadores que estão a trabalhar nos clubes», disse ao Maisfutebol Joaquim Evangelista, presidente do sindicato.

Proximidade e divulgação

O melhor exemplo que podemos dar da proximidade que as redes sociais proporcionam é a forma como chegámos à fala com Paulo Rossas, responsável de Social Media da JWT, e que ministrou essa formação do Sindicato dos Jogadores.

Sabíamos o nome. Mais nada. Cinco minutos e uns cliques depois, começa a entrevista. Bastou uma pesquisa no Facebook e uma mensagem. Só isso.

E se «proximidade» é uma das palavras-chave, a outra é «divulgação». «Tivemos um jogador da terceira divisão brasileira sentado ao lado do Messi e do Ronaldo numa cerimónia do melhor jogador do mundo porque fez um golo e toda a gente partilhou. Antigamente isso seria impossível», explica Paulo Rossas.

(O golo de Wendell Lira acabou mesmo por ser o vencedor do prémio Puskas)

Cartão de visita

Mas para que serve então a um jogador ter uma página numa rede social? «Uma página conta uma história: quem é, o que faz, por onde passou, quem conhece, os golos, as jogadas… é um cartão de visita para a carreira e aproxima-os das pessoas, humaniza-os», explica Paulo Rossas.

O especialista, que também já foi jogador de futebol, frisa que «existem regras» de como «comunicar a seu favor e não contra», mas destaca um ponto essencial: «é preciso uma gigante dose de bom senso».

«Só preciso de dizer as coisas certas e honestas e de valor para olharem para mim e usar isso a meu favor», explica. Como bom exemplo de uso das redes sociais, um nome surge de imediato: Éder.

«Antes do Europeu tinha 1600 fãs. Depois do golo ficou com 120 mil e ele está a gerir bem a página porque é honesto. Depois eu posso ir ao estádio e ver que o Éder falhou aquele lance… mas é boa pessoa. Isso é muito importante. Hoje em dia é possível. Antigamente ninguém perdoava nada. Começavam logo a dizer: ganha rios de dinheiro».

«Por exemplo, a página do João Moutinho é comercial. Fala das botas… isto e aquilo. Um jogador pode e deve promover produtos, faz parte, e os seus fãs até agradecem, mas uma página serve para aproximar o jogador do mundo», explica.

Outro exemplo: Lisandro [Benfica]. «Quando usou a braçadeira de capitão, usou isso a seu favor numa mensagem. “Com muito respeito ao Luisão, senti muito orgulho…” O que ele quer dizer é “não se esqueçam de mim porque sou um de vocês...sou benfiquista!”».

Erros crassos

São ainda bastantes os exemplos de mau uso das redes sociais. «Os jogadores cometem grandes erros hoje em dia porque não receberam formação. Os clubes, que vivem dos seus viveiros, já deviam estar a preparar formações para a sua miudagem», defende o especialista.

«A partir dos 15, 16 anos, que é a idade do salto, os jogadores precisam de estruturar a sua comunicação porque podem estar a cortar os pés a si mesmos daqui a uns anos. Aos 15, 16, 17 anos temos as certezas de tudo e dizemos o que nos apetece, mas hoje em dia é complicado até porque os jornais desportivos picam as páginas dos jogadores», frisa.

«O exemplo do miúdo que assinou pelo Barcelona e passadas seis horas viu o contrato cancelado por ter escrito «Hala Madrid» no Twitter há anos, acabou com a carreira porque era ingénuo», recorda Paulo Rossas. [Ndr. Sergi Guardiola está na equipa B do Granada].

«Encontrar um miúdo do Benfica que critica a estrutura é uma notícia», disse ainda - lembrando quando, em 2014, jogadores da formação encarnada responderam a Jesus a propósito de terem de «nascer dez vezes» - «por isso eles têm que ter consciência de que os jornalistas estão a ler». [Ndr. Filipe Nascimento saiu do Benfica poucos meses depois para o Academico de Viseu. Hoje joga no Cluj da Roménia].

«Outro exemplo, o Maicon [ex-FC Porto] na final da taça. É tão estranho aquele comentário. Ele depois vem explicar, mas...»

Reabilitar a imagem

É possível reabilitar a imagem? «O primeiro passo é assumir a culpa e raramente o fazem. Culpam sempre o Facebook, o gestor, a mulher, o amigo», aconselha o especialista, que defende que a formação também deve chegar aos familiares dos jogadores, que, não raras vezes, se envolvem em polémicas que afetam os atletas.

«Antigamente os pais iam para o estádio gritar com o treinador, hoje em dia vão para o Facebook. Precisam de formação urgente. Os pais e as mulheres, claro».

Ferramenta de emprego

Paulo Rossas lembra que as redes sociais também podem ser uma ferramenta importante de emprego, permitindo aos jogadores «sair daquele lado esquecido do mundo do futebol».

«Hoje em dia, quando um jogador cai no desemprego é complicado sair. O normal é ir ligando aos amigos, a treinadores, pessoas que conhece... E vai pelo boca a boca. Mas há sempre equívocos. Alguém acaba sempre por dizer algo que não deve, um episódio que o marcou pela negativa, e um contrato pode ficar sem efeito rapidamente. Um jogador ter uma boa página nas redes sociais, onde demonstra realmente quem é, é meio caminho andado para não existirem esses equívocos», explicou.

E deu um exemplo. Luís Lourenço, avançado formado nas escolas do Sporting, estava nesse curso do Sindicato, e «muito critico» sobre a utilidade de uma página nas redes sociais. «Encontrei um filme dele, um golaço na Grécia, em que ele nem festeja, parece que quer bater em toda a gente. Como treinador olho para aquilo e o que penso? Feitio difícil. Eu contei isto ao Luís Lourenço e ele responde-me: "Ah mas as pessoas não sabem a história"... E eu disse: "Estás a ver, com uma página tua podes explicar aquela situação facilmente"».

«Normalmente o jogador só pensa nisto quando está na mó de baixo, mas pode promover-se através das redes sociais, mostrando aquilo que sabe fazer».

Hugo Monteiro, ex-jogador do Arouca, formado pelo Boavista, confessa ao Maisfutebol que é «um exemplo claro deste desinteresse das redes sociais» nos melhores momentos da carreira.

«Não me preocupei em fazer essa promoção. Só agora, como estou a tirar um curso ligado à gestão, aprendi a importância das redes sociais na promoção, e voltei a ativar a conta de Facebook que tinha desativado», conta o jogador que, aos 31 anos, com o fim de contrato com o Arouca, depois de ter sido emprestado ao Leixões e ao Anadia, ficou sem clube.

«Desde que reativei a página, escrevi que tinha chegado ao fim o meu contrato e tenho partilhado alguns vídeos. Entretanto fui abordado por algumas pessoas, mas não surgiu nenhuma proposta para jogar ao nível profissional», relata.

«Jogo futebol há 25 anos, e, mesmo que termine a carreira como jogador, não quer dizer que não possa vir a fazer outra coisa relacionada com o futebol, por isso também acho importante ter a página», explica o jogador, que aponta agora como objetivo terminar a faculdade.

Aos 25 anos, Nuninho, jogador do Cinfães, clube que milita no Campeonato de Portugal, leva mais a sério esta aposta nas redes sociais. «Tenho uma página de Facebook de atleta, e uma conta de Instagram que tem a vertente pessoal e profissional, mas mais profissional, que uso para me promover. Além disso, utilizo o InTheMarket [rede social específica para atletas e treinadores]», contou ao Maisfutebol.

 

Nesta aplicação, que funciona como um currículo online, onde os atletas podem colocar fotos e vídeos, e que permite pesquisa por posição e disponibilidade, Nuninho conta já teve «várias abordagens de observadores e empresários estrangeiros».«O contacto fica muito mais fácil».

«Vieram falar comigo, dialogámos, mas não chegámos a nenhum entendimento. Tinha acabado a época e entretanto chegaram algumas abordagens, mas eu resolvi renovar com o Cinfães», contou o jogador.

Carlos Santos, treinador do SC Bustelo, que milita na primeira divisão distrital de Aveiro, é um dos treinadores que utilizam esta rede social para contratar. «Acaba por ser uma base de dados bastante útil. Pela aplicação é mais prático do que estar a telefonar à nossa rede de contactos, que era o que faria se não a tivesse», contou ao Maisfutebol.

«No nosso meio, as coisas são mais difíceis. Também temos alguns empresários envolvidos nos negócios, mas temos muito mais que dar à sola e fazer com que as coisas aconteçam, por isso, como o nosso plantel ainda não está fechado, utilizo a aplicação todos os dias», frisou, explicando que já contratou um jogador utilizando esse meio.

E porquê esta rede social e não outra? «Temos cinco mil amigos no Facebook, não conseguimos selecionar os que são jogadores, treinadores de futebol. Esta é mais prática. Se quiser um guarda-redes, rapidamente consigo chegar a algum, saber se está livre, e ver um treinador que o conheça», concluiu.

Seja qual for o objetivo da presença digital do jogador, convém ter sempre presente: «uma vez na internet, para sempre na internet».