LEIA A CRÓNICA DO PAÇOS-DESP. AVES

«Ò amigo, não há problema nenhum. Não vamos para a bancada, ficamos aqui no bar.»

A sentença do senhor Agostinho, «sócio há mais de 40 anos do meu Paços», é clara. Não é por ter o seu clube a jogar à porta fechada que o abandonará. «Nem por um minuto.»

Não é o único, de resto. No bar do FC Paços de Ferreira, espaço de convívio situado na bancada mais antiga, estão cerca de 50 pessoas. Todas pacenses. 

Na mesa do senhor Agostinho escorrem dois copos de fino, tremoços e um jornal do dia. O camarada ao lado, Carlos, está colado à televisão. «Hoje vai ter de ser assim. Se o castigo é justo? Não conheço os regulamentos. Mas é melhor ser hoje do que num jogo do campeonato.»

Atrás do balcão, três funcionários não têm mãos a medir. Para o Maisfutebol sai um café e uma água. «Veio ver o jogo? Tem mais sorte do que nós. Mas olhe, o negócio está melhor do que eu esperava.»

Os Yellow Boys ficaram fora do estádio. Não se calaram

Calor, tarde de muito calor. A alma pacense não entra nas bancadas, mas cá fora a atmosfera é «quase normal». É essa a expressão utilizada por um dos soldados da GNR presentes. «Há jogo das camadas jovens aí ao lado e o pessoal da claque está na rua. Temos de estar atentos. Ainda por cima recebemos a indicação de que saíram três autocarros da Vila das Aves. Não sei o que vêm cá fazer.»

Se os autocarros das Aves chegaram, o Maisfutebol já não viu. 

Viu, isso sim, um parque cheio de automóveis e uma bancada cheia de gente no campo de treinos, para o jogo dos infantis.

Os Yellow Boys, claque oficial do Paços, preferiram ficar na rua. E vão gritar o jogo todo, até que a voz lhes dia. São cerca de 30 e resistem ao bloqueio das entradas. Mais tarde, dentro do estádio, confirmamos o que prometem: os rapazes não se calaram e a equipa de Vítor Oliveira ouviu-os. 

 

Gente nas bancadas só no jogo dos infantis

Lá fora, aparente normalidade. Cá dentro, cadeiras vazias e o silêncio quebrado pela instalação sonora. Vampire Weekend, bom gosto. 

Apito inicial, apenas jornalistas, agentes da GNR e elementos da organização do jogo. A Liga prefere não emitir comentários ao nosso jornal sobre esta situação rara no futebol português. «Ordens superiores.»

Rola a bola, ouvimos tudo. As bocas, as indicações dos treinadores, a claque lá ao longe, os gritos dos miúdos dos infantis no campo ao lado. 

Uma nova versão do futebol profissional em Portugal.