Na hora da conquista, Sérgio Conceição recordou-se da promessa que havia feito no dia da apresentação como treinador do FC Porto, a 8 de junho do ano passado, e dedicou o título de campeão aos seus falecidos pais.

«Onde quer que estejam, eles já estão felizes; mas estarão ainda mais em maio.» Onze meses depois, cumpriu a promessa que havia feito e, celebrando, não conteve as lágrimas no momento de os recordar.

O treinador do FC Porto é um homem ligado à família, devoto e solidário, como o Maisfutebol pôde constatar ao conhecer as suas raízes em Ribeira de Frades, aldeia do concelho de Coimbra, onde nasceu e cresceu.

Ao menino de uma família humilde – o pai era pedreiro e a mãe doméstica –, o segundo mais novo de sete irmãos, o futebol haveria de dar-lhe tudo o que jamais imaginou na infância.

Sérgio Conceição no dia da apresentação como treinador do FC Porto, a 8 de junho de 2017

A vida havia, porém, de trazer-lhe uma mágoa constante. O pai de Sérgio faleceu, quando ele tinha 16 anos, num acidente de motorizada, no dia seguinte a tê-lo acompanhado às Antas para assinar contrato pelo FC Porto. A mãe, que tinha problemas de saúde e tinha de locomover-se numa cadeira de rodas, morreu dois anos depois. Nesse período da adolescência, faleceu-lhe também um irmão, num de acidente de trabalho numa fábrica de pré-esforçados.

O «seu» estádio em frente à casa do sogro

«O gajo tem um iate, os melhores carros, casas fantásticas e nunca pôde dar isso aos pais, que viveram sempre num cantinho recatado… É uma amargura que o acompanha; sobretudo por os pais nunca terem podido desfrutar dos filhos dele», conta ao Maisfutebol Jorge Manuel Mendes, amigo há mais de 20 anos e empresário que ajuda à gestão da carreira do treinador.

Sérgio casou-se aos 20 anos com a sua atual mulher. Têm cinco filhos, todos rapazes. Exceto o mais jovem (José, de 3 anos) todos jogam futebol. Três deles são extremos, a posição em que o progenitor se destacou: Rodrigo, de 18 anos, joga no Benfica; Moisés, de 17, joga no FC Porto; Rodrigo, de 15, trocou o Sporting pelo Padroense nesta época. O mais velho, de 21, Sérgio, como o pai, está na universidade a tirar gestão desportiva e também joga futebol: nesta época representou os seniores do Sp. Espinho.

Jorge Manuel Mendes, amigo e empresário de Sérgio Conceição

Os sogros são como «segundos pais». Porém, no início, não foi fácil driblar os humores do sogro e levar por diante o namoro.

«O pai da esposa dele não gostava muito que eles, ainda pequenitos, com 14 anos ou assim, namorassem. No entanto, curiosamente, mesmo em frente à casa dos sogros, em Taveiro, existe agora o Estádio Sérgio Conceição. Quando acorda, o sogro leva com o estádio do genro logo ali em frente. Não o queria, mas afinal o gajo é bom…», graceja Jorge.

Herói portista numa aldeia de leões

Vizinha a Taveiro, Ribeira de Frades é uma aldeia com uma esmagadora maioria de adeptos sportinguistas. Há um núcleo leonino e o clube da terra, o Sporting Clube Ribeirense, é a filial número 83 do clube de Alvalade.

Por influência da família, Sérgio era do Sporting em miúdo, mas nunca chegou a jogar no Ribeirense.

«A única ligação ao clube aconteceu em maio de 2014, numa altura em que ele treinava a Académica e veio apadrinhar um torneio de sub-11, com 120 crianças. Foi uma espécie de homenagem que achámos que a nossa terra e o clube lhe devia de fazer», afirma Paulo Mourinho, ex-presidente do Ribeirense.

Sérgio Conceição em maio 2014 apadrinhou o torneio do Sporting Ribeirense

Sérgio jogava à bola no baldio de Santa Eufémia, junto da casa dos pais, que há tempos comprou e onde hoje mora uma das suas irmãs. Raramente vinha jogar para o Largo do Rossio, no centro da aldeia, onde fica o Café Amoreira, do seu primo Álvaro Serrano, de 47 anos, quatro anos mais velho.

O treinador portista vem a Ribeira de Frades com frequência. Vai ao cemitério visitar a campa dos pais, para no café de Álvaro para trocar dois dedos de conversa com os irmãos ou com amigos. «Ainda há três semanas cá esteve», dizem-nos. E é lá que paramos também, por agora. Para perceber como é que um rapaz que nem era um prodígio com a bola nos pés chegou da Académica ao FC Porto e daí ao estrelato em Itália ao serviço de Lazio, Parma, Inter... Até chegar às 56 internacionalizações pela Seleção Nacional.

«Toda a gente sabe que na Académica sempre houve uns privilégios e um certo protecionismo aos filhos dos senhores doutores… Sendo ele filho de gente humilde estava logo em desvantagem. Mas ele punha muito gosto e muito esforço naquilo que fazia», recorda Álvaro, que também é simpatizante do Sporting.

Álvaro Serrano com uma camisola que lhe foi oferecida pelo primo Sérgio Conceição

O pai de Sérgio ajudava. Todos os dias, José (nome com que o treinador do FC Porto batizou o seu filho mais novo) levava o filho na moto para treinar ao Campo de Santa Cruz, em Coimbra. Os dez quilómetros de distância eram especialmente mais duros no inverno, sob frio e chuva.

O craque e o maior portista de Ribeira de Frades

Apesar da diferença de idades de sete anos, em miúdo era Paulo Aniceto o craque da aldeia; até chegou a jogar no União de Coimbra e a ser chamado a um estágio da seleção de sub-21 no Estádio do Bessa.

«Eu jogava um bocadinho, jogava… (pausa) Mas era preciso ter cabeça e o Sérgio tinha muito mais do que eu. Eram outros tempos… Já se notava que ele tinha jeito, mas foi a garra dele que fez a diferença na Académica e depois lá foi para o FC Porto», recorda Aniceto, que se cruzou em campo apenas quando ele já era estrela, muitos anos depois, num torneio de futsal.

Largo do Rossio, no centro da aldeia de Ribeira de Frades

Rui Nunes, autointitulado o maior portista de Ribeira de Frades, lembra-se do salto de Sérgio da Académica para os dragões, onde haveria de chegar à primeira equipa em 1996 e sagrar-se bicampeão nacional antes de ser vendido para a Lazio por 10 milhões de euros… E onde havia de regressar em 2003/04 para integrar a equipa de José Mourinho, que nessa época foi campeã nacional e europeia.

«Houve um jogo em que ele marcou três golos e começou a dar nas vistas. Um olheiro viu-o e indicou-o ao FC Porto, apesar de Benfica e Sporting também terem mostrado interesse», conta, antes da conversa ser interrompida pelo barulho de uma moto, que para à porta do café. Mais um sportinguista, mais uma brincadeira: «Eh, campeão! Os gajos (benfiquistas) andam com azia, pá!»

O «craque» Aniceto, o portista Rui Nunes e o primo Álvaro Serrano (dir. p/ esq.), junto ao Café Amoreira 

No sábado, mal terminou em empate o dérbi de Lisboa, houve umas buzinadelas à volta do largo. Paulo Aniceto, também leão, não nega apoio ao filho da terra: «Se não for para o Sporting, que seja para o Sérgio.»

Por sua vez, Álvaro sublinha um detalhe: «Este primeiro título como treinador terá tido um impacto especial para ele, também pelo facto de ter sido celebrado no Dia da Mãe.»

O amigo devoto e solidário da «Madre Teresa»

Segunda-feira, momentos antes de celebrar o 56.º aniversário na companhia de Sérgio Conceição, com gente do futebol e outros amigos em comum, como o humorista Fernando Rocha ou o cantor Toy, Jorge Manuel Mendes encontrou-se com o Maisfutebol na Pedrulha, arredores de Coimbra. Não quis perder a oportunidade para dar a conhecer um pouco mais o treinador do FC Porto, de quem é confidente há muitos anos. Por trás da figura pública do técnico, há um homem apegado à família e à fé católica.

«Ele é muito devoto. Vai a pé a Fátima, cumpre a abstinência durante a Quaresma…», refere, antes de destacar também o lado solidário de alguém que, sem alaridos, quer dar o exemplo e ajudar meninos de famílias carenciadas como um dia foi a sua.

«Desde que a vida lhe começou a sorrir que ele quer partilhar. Quando ele estava a jogar em Itália, na Lazio, pediu-me para encontrar alguma instituição aqui em Coimbra para ajudar», afirma Jorge. O melhor exemplo disso é a Comunidade Juvenil Francisco de Assis, fundada por Maria Teresa Granado, que ao longo de mais de 40 anos ajudou mais de meio milhar de jovens órfãos ou de famílias carenciadas.

Instalações da Comunidade Juvenil Francisco de Assis, em Eiras

Naquelas instalações de casas pré-fabricadas, na freguesia de Eiras, às portas da cidade de Coimbra, encontrámos a «Madre Teresa», como é conhecida por aquelas bandas, que aos 89 anos revela uma lucidez e memória notáveis. Lembra-se, por exemplo, do momento exato em que o jovem Sérgio, então já estrela do calcio, lhe apareceu à frente para ajudar no que pudesse.

«Eu estava a fazer um bolo de iogurte para o aniversário de um jovem daqui e apareceu-me na cozinha um rapaz, que me disse: “Eu sou o Sérgio Conceição. Gosto muito da sua obra e venho aqui trazer-lhe uma ajuda.” E deu-me dois mil euros para a instituição. Fiquei-lhe grata. Nessa altura, tinha umas 80 crianças aqui. Agora, são bem menos. Eu não o conhecia; não ligava nada a futebol», recorda Maria Teresa Granado, enquanto, por coincidência, se ouve em fundo na televisão notícias da festa de campeão do FC Porto no passado domingo.

Passaram vinte anos e Sérgio Conceição não mais largou esta amizade. Passou a visitar regularmente a instituição. Por vezes, aparece meio disfarçado, de capuz e barba por fazer. Mas sempre pronto a ajudar.

Ao amigo a «Madre» traça o perfil em dois tempos: «Ele é um rapaz que gosta de ajudar toda a gente. Teve dificuldades na adolescência e quando a vida lhe sorriu tornou-se num homem generoso, mas também trabalhador e muito exigente… Não é para brincadeiras. Com ele não se brinca ao trabalho.»

Maria Teresa Granado: fundadora da instituição e amiga de Sérgio Conceição

Sobre a relação entre ambos, acrescenta: «Eu passei a ligar mais ao futebol. Quer dizer, ao Sérgio. Quando ele ganha, fico muito contente e telefono-lhe a dar os parabéns. Escolho sempre um momento em que ache que não o vou incomodar. Nesta época vi tudo. Vejo tudo o que é do Sérgio. Ainda ontem [domingo] estive a ver a festa dos campeões. Escrevi um livro sobre a minha vida e convidei-o para o lançamento, no dia 11 (nesta sexta-feira), ali na Praça da República, em Coimbra. Ele disse que no dia seguinte tinha jogo, mas que ia tentar aparecer…», refere, sempre num tom sereno e cativante.

Da ajuda à Académica à vontade de presidir uma instituição

A ligação à Comunidade de São Francisco de Assis é tão forte que Jorge Manuel Mendes até nos faz uma revelação surpreendente: «Ele já me disse: “Um dia, quando eu tiver tempo, gostaria de ser presidente da instituição”. Ele ganhou amizade com a senhora. Mas também, por exemplo, ajuda alguém que veja em dificuldades na televisão.»

Os exemplos sucedem-se. Sérgio já telefonou para programas para, sob anonimato, oferecer, por exemplo, uma cadeira de rodas a alguém que precisa. Noutra ocasião, após um apelo do falecido presidente da Académica, João Moreno, comprou a receita de um jogo por 60 mil euros.

«Ele é assim. Não gosta de divulgar o que faz, mas tem um coração enorme», explica Jorge. O primo Álvaro corrobora o testemunho, ao salientar o gosto de Sérgio Conceição por ajudar e a discrição com que o faz:

«O Sérgio não precisa de estar nos sítios para fazer as coisas acontecerem. Ele tem tantos amigos verdadeiros, como ele, que não tem necessidade de sequer de aparecer. Basta um ou dois telefonemas e resolve um problema. Houve uma vez que faltou leite na Comunidade Francisco de Assis e, mal soube, tratou logo de fazer lá chegar umas paletes...»

Exigente e motivador na relação com os jogadores

Sérgio tem também o seu lado temperamental. Detesta perder, mesmo que seja a jogar matraquilhos com os sobrinhos no Café Amoreira. É também rigoroso, desconfiado, até obsessivo com o trabalho.

Por outro lado, tem o lado social, bem-humorado, atento a recompensar quem trabalha. Promove desde jantares a uma série de atividades com o grupo (de sessões de stand-up comedy, paintball, corridas de karts...). Nesta época, houve um dia em que, sentindo o plantel cansado, marcou uma sessão de spa num hotel de cinco estrelas e em seguida levou craques e equipa técnica do FC Porto a almoçar numa pizzaria.

Em troca, exige trabalho. Sempre à sua maneira. Na memória dos ex-pupilos ficam gestos marcantes. Como um presente especial que ofereceu a cada jogador quando deixou o comando técnico do Olhanense, o primeiro clube que treinou, em 2011/12, antes de Académica, Vitória de Guimarães, Sp. Braga e Nantes. Dessa vez, marcou um jantar de despedida e ofereceu uma caneta Montblanc personalizada a cada jogador.

Jorge Manuel Mendes (1.ª à direita) com Conceição e Paulo Mourinho (entre ambos), ex-presidente do Ribeirense

Jorge Manuel Mendes sorri enquanto confidencia as peculiaridades do amigo: «Por vezes, ele fala comigo para tirar dúvidas, mas não se lhe pode dar muitos conselhos, senão ele faz tudo ao contrário. Amadurece muito cada decisão. Às vezes, até exagera. França mudou-o muito. Ele era visto como um tipo explosivo, mas a época passada no Nantes fez-lhe muito bem. Quem o conhece, sabe que ele é uma pessoa educada e muito correta, mas ele tem o seu temperamento e não queria passar uma má imagem.»

Amigo resume: «Tudo o que seja confuso ele adora»

A aventura em França terminou de forma abrupta no início desta época. Sérgio ficou tentado pelo regresso a um FC Porto que é como sua casa desde os 16 anos. Não podia recusar o desafio lançado por Pinto da Costa.

Havia ali uma oportunidade de sonho para potenciar a frontalidade e coragem que o caracteriza. Foi esse lado que falou mais alto quando no último defeso decidiu comprar uma guerra com o presidente Nantes, Waldemar Kita, e trocou um contrato a receber quatro milhões por cada uma das três épocas por um salário bastante inferior num FC Porto com restrições financeiras e com uma pressão tremenda para ganhar ao fim de quatro anos de seca de títulos.

«O facto de o FC Porto estar num momento difícil fascinou-o. Se o FC Porto estivesse a ganhar, tenho a certeza de que ele não viria. O FC Porto estar há quatro anos sem vencer, a passar por dificuldades… Isso mexeu com ele. Foi o desafio que o fez regressar. Ele adora isso. Tudo o que seja confuso, ele adora», diz Jorge, acrescentando: «Menosprezá-lo ou tentar feri-lo é o maior erro que um adversário pode cometer. Ele convive com isso de uma forma extraordinária. Alimenta-se disso.» E remata, resumindo tudo numa frase que não deixa ninguém indiferente: «O Sérgio tem mais talento como treinador do que como jogador. Pese embora a carreira fantástica que fez. Disse-lhe isso desde o início.»

Sérgio Conceição abraça a mulher na celebração do título de campeão nacional

A verdade é que Sérgio Conceição arriscou e venceu. Foi campeão. No final, cumpriu a promessa solene que havia feito onze meses antes. No Porto, em Ribeira de Frades, um pouco por todo o lado paira agora no ar a ideia de que este êxito ainda é só o começo.

Há uma carreira cheia de promessas para cumprir. Há uma vida inteira para dedicar aos seus pais.