DESTINO: 80's é uma nova rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 80's.

Samuel Quina, a eterna esperança. Chegou ao Benfica com catorze anos, com um sorriso tímido e um ar «franzino», mas subiu a pulso, foi quatro vezes campeão nacional, conquistou cinco Taças de Portugal, duas Supertaças e ainda jogou uma final da Taça dos Campeões. Foi dispensado, mas voltou à Luz pela porta grande. No final da carreira, aos 31 anos, ainda era apontado como uma «promessa» do futebol português. Esta é a história de um resistente com cara de menino.

Fomos encontrar Samuel, aos 48 anos, em Londres. Foi a partir da capital inglesa que fizemos uma viagem ao passado, recuámos 34 anos no tempo, até ao início da década de oitenta e aterrámos em Bissau. O jovem Samuel jogava no Benfica daquela cidade e a ponte para Lisboa foi feita por Cavungi, antigo jogador do Benfica e amigo de Samuel, que aconselhou a contratação do jovem defesa ao clube da Luz. «Ele tinha ido lá de férias e falou de mim ao treinador do Benfica. Pediram-me para ir lá fazer um treino e fiquei», começa por recordar.

Os primeiros tempos na capital portuguesa não foram fáceis. «Eu era muito novo, muito franzino para o lugar que ocupava, toda a gente desconfiava». Mas as aparências enganam e Samuel fez questão de deixar isso claro. «Eu desenrascava-me como podia. Não tinha muito poder de choque, não era muito alto, mas era muito rápido. Cheguei a capitão dos juniores e fomos campeões», vinca. Daí à equipa principal, foi mais um passo. «O Benfica tinha sido convidado para inaugurar o novo relvado do Elvas, mas não tinha jogadores suficientes e levaram alguns juniores. Fui o melhor em campo. O mister Fernando Caiado falou de mim a Eriksson e a parti daí passei a treinar com os seniores e a jogar com os juniores».

Os centrais do Benfica em 1983 eram Humberto Coelho e Oliveira. Bastos Lopes estava já na fase final da carreira. Uma lesão de Humberto Coelho abriu definitivamente as portas da equipa principal a Samuel. Passou a ser presença habitual no banco. «Nunca jogava, mas num jogo da Taça, com o D. Chaves, o Bastos Lopes saiu lesionado e ele [Eriksson] meteu-me». A partir daí passou a saltar muitas vezes do banco e na temporada seguinte, marcou o seu primeiro e único golo no campeonato português. Samuel lembra-se como se fosse hoje. «Empatámos com o Sp. Braga 2-2 e marquei o primeiro. Foi um canto do Carlos Manuel, fui para a quina da área, mas fiquei de fora. Houve alguém que afastou a bola e eu, de cabeça, tentei metê-la outra vez na área, mas o guarda-redes escorregou e a bola passou-lhe por cima. Foi um dos golos mais esquisitos que vi na minha carreira», conta.

«Quando sofríamos um golo, a culpa era sempre minha»

Mas a vida começou a ficar complicada para Samuel. Primeiro chegou Mozer, depois Aldair e, mais tarde, Ricardo Gomes. Três consagrados internacionais brasileiros que deixavam o miúdo a ver jogar. Samuel tinha cada vez menos espaço no plantel. «Deixei de jogar. Mas houve uma altura em que o Ricardo Gomes tinha uma pubalgia e eu também. Jogávamos metade do jogo cada um».

Um período difícil para Samuel que só voltou a sorrir com o regresso de Eriksson na temporada de 1989/90, sobretudo, depois de uma lesão de Aldair. «Foi muito importante, era um treinador que acreditava em mim, gostava da minha entrega». Samuel volta a jogar com regularidade, mas a época foi complicada. «Eu tinha problemas musculares muito graves. Rasgava facilmente. Apanhei uma época com jogadores mais batidos e quando sofríamos um golo, eu era sempre o culpado. Implicavam comigo e passei a ter algum receio e instabilidade. A culpa era sempre minha, mesmo que o golo fosse no outro lado», contou.

Apesar da instabilidade, foi uma temporada marcante a nível europeu. Primeiro a histórica meia-final com o Marselha. O Benfica tinha perdido no Estádio Vélodrome por 1-2 e venceu na Luz por 1-0. Um jogo que todos se lembram pela célebre mão de Vata, mas os mais atentos não esquecem a implacável marcação que Samuel impôs Papin que tinha marcado no primeiro jogo, mas ficou em branco no segundo. «O Ricardo [Gomes] estava castigado e joguei eu. Foi um grande jogo. Disseram que meti o Papin no bolso».

Eriksson também gostou, de tal forma, que para a final, com o Milan, voltou a destacar Samuel para o onze titular. Veloso tinha visto um cartão amarelo e estava afastado da final de Viena e o treinador sueco não teve dúvidas em desviar o defesa guineense para a lateral, para marcar...Ruud Gullit. «Ele começou a preparar-me muito antes para esse jogo. Comecei a jogar para o campeonato na esquerda, para ganhar maturidade, mas senti muitas dificuldades. Já tinha jogado na direita, mas na esquerda não. Lembro-me que os críticos estavam doidos com Eriksson. Não tinha Veloso, mas tinha outros jogadores como o Abel, o Alvaro ou Fernando Mendes para aquela posição», recordou. Samuel esteve novamente em grande. Não marcou Gullit, mas marcou Rijkaard e manteve-se a maldição de Bela Guttman.

«No Boavista foi a minha melhor época de sempre»

O Benfica recuperou entretanto Ricardo Gomes e contratou William ao V. Guimarães. Samuel voltava a perder espaço na equipa e, em 1991/92, é emprestado ao Boavista. «Foi a minha melhor época sempre. Fiz todos os jogos sem problemas de lesões». Vingança? «Nada disso, não podia ser. O Benfica era a minha casa, foi onde fui criado, nunca pensei em vigança». Mas a verdade é que, nessa temporada, Samuel faz três grandes jogos contra o Benfica e no final da época ganhou a Taça de Portugal ao FC Porto (2-1). «Isso é verdade. Até fiz um penálti contra o Benfica, mas eles falharam. Tínhamos uma grande equipa». Samuel jogou com outros jogadores que acabaram por jogar no Benfica como João Vieira Pinto, Ricky, Fernando Mendes e Tavares. «E ainda o Bobó, o Nogueira, o Barny. Grandes colegas. Quando as coisas correm bem também é mais fácil».

Foi nesta altura que Samuel voltou a ser chamado por Carlos Queirós à seleção. «Voltei e ainda joguei com o Luís Figo, Peixe e Domingos». Antes disso, em 1985, chegou a estar pré-convocado para o Mundial do México. «Estive quase para ir, mas tive um problema muscular e acabei por não ir», recorda.

A zanga de Eriksson: «Nunca mais me convocou»

Uma grande temporada que levou o Benfica a exigir o seu regresso. «Insistiram que eu voltasse. Foi uma guerra porque o Manuel José queria que eu ficasse no Boavista». O regresso até era auspicioso, uma vez que permitia um reencontro com Eriksson. Mas houve um episódio que quebrou definitivamente o elo especial com o treinador sueco.

«Foi uma época em que voltei a ter muitos problemas musculares. O Eriksson apostava sempre em mim, mesmo quando estava no banco, entrava sempre. Mas houve um dia que ficou muito chateado comigo. Foi num jogo com o Belenenses. Eu estava com dores, mas o Eriksson convocou-me à mesma. Sabia que ele me ia por a jogar, por isso chamei o médico e pedi-lhe para ele dar uma palavra ao mister porque não estava mesmo bem e sabia que se fosse jogar podia sofrer uma lesão grave». Eriksson não gostou do recado. «Nunca mais me convocou a partir daí», contou um Samuel com a voz a esmorecer. «O futebol é uma coisa complicadíssima, só quem lá andou é que sabe. À vezes não se pode ser sincero», acrescentou.

O princípio do fim: doping «esquisito» e joelho «rebentado»

Em 1993/94, sai Eriksson, entra Toni e a porta fecha-se definitivamente para Samuel. O defesa ruma ao Vitória de Guimarães onde voltou a cruzar-se com jogadores que acabariam por criar ligações com o Benfica como Dimas, Paulo Bento, Brassard, José Carlos, Zahovic, Vítor Paneira, Neno e Quim Berto. Mas a verdade é que o central guineense não voltou a encontrar a felicidade que o Bessa lhe tinha oferecido.

«Na primeira época, com Bernardino Pedroto, sofri uma rotura no joelho e estive seis meses sem jogar. Na segunda, com Quinito, foi um pouco melhor, ficámos em quarto, mas tive sempre problemas graves», contou.

O declínio prosseguiu depois no Tirsense de Eurico Gomes, com mais um episódio marcante na carreira de Samuel. «Estava a sentir uma poeira na garganta que me andava a incomodar e passei numa farmácia para ver se me podiam arranjar alguma coisa. Deram-me Actifed, um xarope. Tomei na sexta-feira e no sábado, o jogo era no domingo e esqueci-me de dizer», começa por recordar.

No final do jogo desse domingo, Samuel foi chamado ao controlo antidoping e entrou em pânico. «Liguei ao [António] Gaspar, do Benfica. Disse-me que se tivesse tomado pouco, não havia problema, porque acabava por sair com a urina e não acusava. Mas não saiu um pingo e fui apanhado. O farmacêutico ainda escreveu uma carta que me atenuou a pena, mas tive de cumprir seis meses de castigo».

Dias muito difíceis para Samuel que acabou por ser despedido da equipa de Santo Tirso. «Na altura aconteceu o mesmo ao Sanchez e ao Semedo. Foi uma coisa muito esquisita. Nunca me dopei, mas ninguém acreditava em mim. Mesmo os meus amigos mais próximos ficavam desconfiados. Foi muito triste».

Mas Samuel não é de baixar os braços. Entretanto, abriu um restaurante, que manteve até há pouco tempo em Alfragide, e voltou aos relvados. Primeiro para jogar pelo Odivelas, depois pelo Fanhões, onde acabou a carreira, de forma abrupta, aos 31 anos, num jogo frente ao Lourinhanense na II Divisão. «Rebentei por completo com o joelho direito com uma rotura total no tendão rotuliano. Ainda agora sinto dores, não posso brincar com as minhas filhas».

Samuel dedicou-se depois à família e ao restaurante de Alfragide. Há um ano decidiu rumar a Londres para dar apoio à filha que foi para lá estudar. «Estou a pensar ficar por aqui. Estou a pensar no negócio no meu ramo [restauração], mas ainda está numa fase de estudo». Boa sorte Samuel.