*Por Rui Pedro Silva

O Mundial é dominado pelo hemisfério sul. A Inglaterra conseguiu furar a hegemonia na edição de 2003 mas o eixo África do Sul-Austrália-Nova Zelândia não costuma dar hipóteses no momento das decisões. A diferença é que nunca o desempenho europeu tinha sido tão fraco como em 2015. Até então, apenas em 1995 a final não tinha tido uma seleção europeia. Mas no ano passado o cenário foi ainda pior: nem na final, nem nas meias-finais. Gales, Escócia, Irlanda e França conseguiram o apuramento para os quartos-de-final mas caíram logo aí.

O fracasso teve várias dimensões mas nenhuma foi pior do que a da Inglaterra, primeira seleção anfitriã a ficar pelo caminho na fase de grupos. Apesar de tudo, Tomaz Morais, antigo selecionador de Portugal e comentador do programa Maisfutebol, não encara a edição do Seis Nações que arranca este sábado como uma oportunidade de redenção. O orgulho pode estar ferido e em jogo, mas é uma prova à parte, «a mais particular que o râguebi tem».

A lógica de favoritos não é muito diferente de anos anteriores. «A Inglaterra é sempre a principal favorita», arranca Tomaz Morais, colocando a Irlanda, bicampeã em título, em segundo plano e Gales, França e Escócia em terceiro. No caso escocês, vencer a competição talvez não seja um objetivo ao alcance mas poderá ter uma palavra a dizer na discussão, condicionando outros favoritos.

Essa é, pelo menos, a opinião do comentador, lembrando o excelente Mundial. «Foi a grande surpresa e terminou injustamente afastada por um erro do árbitro [34-35 nos quartos-de-final contra a Austrália, por culpa de uma penalidade inexistente convertida por Bernard Foley em cima do final do encontro]. Foi o râguebi que gostei mais de ver», acrescenta.

O erro que afasta a Escócia do Mundial

A renovação inglesa

A Inglaterra não vence o Seis Nações desde 2011 e está num processo de grande renovação. Stuart Lancaster abandonou o cargo após o fracasso no Mundial organizado – derrotas com Gales e Austrália na fase de grupos ditaram a eliminação na primeira fase – e abriu caminho para a entrada do primeiro selecionador estrangeiro na história: Eddie Jones.

A entrada do australiano que deixou uma marca ao comando do Japão provocou mudanças desde o primeiro momento. Chris Robshaw, criticado pelas decisões tomadas contra Gales, entregou a braçadeira de capitão ao talonador Dylan Hartley e... Arnold Schwarzenegger também desapareceu da vista no centro de treinos em Pennyhill Park.

«A força não vem da vitória. As tuas dificuldades desenvolvem as tuas forças. Quando passas por momentos difíceis e recusas render-te, isso é uma força» era a frase do ator e antigo governador da Califórnia que deixou de poder ser vista. Porquê? «Não sou um grande fã dos seus filmes, por isso não faz sentido que esteja lá», confessou Eddie Jones.

Por isso e por querer um novo começo. «Estamos a começar do zero. Em muitos aspetos, tivemos de fazer reinícios», continuou. É esse recomeço que também faz com que o selecionador afaste a pressão na estreia do Seis Nações, em Edimburgo contra a Escócia. «Somos uma jovem equipa com apenas algumas semanas de trabalho, por isso a situação é diferente. Vamos entrar como underdogs», esclareceu.

A defesa irlandesa

As duas últimas edições foram ganhas pela Irlanda, sempre graças à diferença entre pontos marcados e sofridos na comparação com a Inglaterra (+10 em 2014, +6 em 2015), mas fazê-lo três vezes consecutivas é algo que nunca conseguiu.

Sem o carismático líder Paul O’Connell (terminou a carreira) e após um Mundial que terminou com uma derrota expressiva com a Argentina (20-43), a Irlanda será sempre uma ameaça, opina Tomaz Morais. «Mantém o seu estilo, muito agressivo na forma de jogar. A forma como se entregam é muito particular, faz parte da cultura. Mesmo sem um grande líder, é capaz de vencer quem quer que seja e nos últimos anos é quem tem criado mais problemas à Nova Zelândia. Nunca perde a identidade e é a seleção que menos depende de um ou outro jogador.»

Paul O’Connell fará falta mas a mensagem que os jogadores estão a passar é que a vida continua. Aliás, Sean O’Brien, o número oito, até consegue ver pontos positivos. «Tem algo de bom, já não vai ficar a olhar fixamente para as pessoas e intimidar-nos como fazia», brincou, sublinhando depois que tudo será «obviamente diferente». «Cabe aos outros jogadores preencher a lacuna», aponta.

Outro jogador, Donnacha Ryan, salienta que a solução não passa por imitar o que se fazia com O’Connell. «Não vale a pena ir por aí porque ele era único. Temos de ficar com os nossos próprios hábitos e estilos. Precisamos de fazer o nosso trabalho, e o melhor possível. É isso que esperam de nós.»

JORNADA 1

França-Itália, sábado às 14h25

Escócia-Inglaterra, sábado às 16h50

Irlanda-Gales, domingo às 15h00

A luta no terceiro plano

País de Gales, França e Escócia terão uma palavra a dizer no torneio, enquanto a Itália, talvez mais do que nunca, poderá estar destinada a ficar com a Colher de Pau («atribuída» a quem termina na última posição), pela 11.ª vez em 17 edições.

As lutas de cada um serão diferentes. Gales demonstrou no Mundial que as inúmeras lesões (Leigh Halfpenny e Rhys Webb continuam ausentes, por exemplo) poderiam ser ultrapassadas e levou a melhor sobre a Inglaterra, enquanto a seleção francesa está a atravessar um período de maior incógnita. Afastada pela Nova Zelândia nos quartos-de-final, num jogo em que foi atropelada por Julian Savea, está num ponto fulcral.

Um dos três ensaios de Savea contra a França

«O râguebi francês está a passar por uma grande crise de valores, em que a captação de jogadores de outros continentes retirou identidade à cultura própria do estilo de jogo», analisa Tomaz Morais, que aponta este torneio como sendo «muito especial para a França» para ver até que ponto poderá ser encarado como o momento do ressurgimento da seleção.

O caso da Escócia é radicalmente diferente. Com apenas oito vitórias nos últimos nove torneios, os escoceses partem para este Seis Nações com uma injeção de confiança por culpa do Mundial. A estreia com a Inglaterra poderá servir para tirar as primeiras conclusões e a figura da equipa, Greig Laidlaw, sente a necessidade de recuperar a Escócia para este torneio.

«Não há dúvida de que temos estado abaixo das nossas capacidades neste torneio no passado, mas agora é altura de mudar. Se conseguimos ser a equipa que inverte este paradigma, será um enorme legado para deixar aos que vierem a seguir», aponta o médio de formação.

Sombra de leste

A emergência de seleções como Geórgia e Roménia está a pôr em causa o modelo de organização do Seis Nações. As críticas sobem de tom e os resultados dos Lelos no Mundial, com o terceiro lugar no grupo da Nova Zelândia, Argentina, Tonga e Namíbia, serviram de argumento para debater um novo modelo que pudesse contemplar subidas e descidas.

Para já, a resistência vingou mas a pressão poderá tornar-se cada vez maior à medida que os resultados continuem a servir de arremesso, especialmente perante a incapacidade crónica da Itália em fazer frente aos favoritos ao título. A Escócia também entrava nesta discussão mas os resultados recentes garantiram um balão de oxigénio para afastar a sombra de leste.