Nani, simplicidade e inspiração

Inclemente entre os minutos 29 e 30, diabólico na maior parte do tempo. Dois golos de belo efeito, a certificarem o talento de um homem que tanta falta fez à selecção no Mundial. O primeiro recheado de simplicidade venenosa, numa finalização de primeira a passe de Cristiano Ronaldo; o segundo carregado de inspiração diletante, a roubar um passe perdido e a fuzilar o pobre Sorensen. Nani é isto. Verticalidade, talento e coragem num jogador só. Fez o que quer, passe o exagero, de Silberbauer o jogo inteiro. Queremos mais disto na Islândia.

João Moutinho, que jogatana!

Que grande jogo! Só não é o melhor em campo porque os dois golos de Nani não deixam. Simplesmente perfeito. Não falhou um passe, um drible, uma recepção. Atravessa um grande momento de forma e tudo lhe sai bem. Custa a aceitar, de resto, o papel secundário que tem desempenhado ao longo dos anos na Selecção Nacional. É um médio de alto quilate, inteligente e precioso, Jogou de olhos fechados com Raul Meireles, o homem que substituiu no F.C. Porto. Queremos mais disto na Islândia.

Cristiano Ronaldo, ser especial a espaços

Merece mais tolerância por parte das bancadas. Antes das coisas lhe saírem a preceito teve de ouvir assobios escusados e injustos. Ronaldo quer fazer tudo, joga com paixão, entrega-se a fundo, mas leva demasiado longe o estatuto que ostenta, é verdade. O público tem de entendê-lo e Ronaldo tem de entender que não tem de ser sempre especial. Sem atingir níveis de excepção, fez um bom jogo e acabou com as dúvidas. Entregou a bola à flor da relva para o primeiro golo de Nani, obrigou Lindegaard a grande defesa em cima do intervalo, estremeceu a barra da baliza nórdica aos 55 minutos e fechou as contas já perto do final. Queremos mais disto na Islândia.

FICHA DE JOGO

Leia a Crónica do jogo

Raul Meireles, sem invenções

A maior prova de como a beleza do futebol pode residir na sua simplicidade. Portugal não precisa de um trinco [ou pivô defensivo] alto e truculento para ganhar. Ter uma unidade que sabe tratar a bola, preenche bem os espaços e distribui com intuição o jogo, confere novos horizontes à equipa. Partida muito positiva no regresso ao estádio onde viveu os melhores momentos da carreira. Não é preciso inventar: está aqui o número seis da selecção. Queremos mais disto na Islândia.

João Pereira, ser lateral ajuda

Intenso na primeira parte, conservador na segunda, sempre competente. Uma equipa ambiciosa, arrojada, com a obrigação de ganhar sempre, não pode ou pelo menos não deve ¿ alinhar com laterais adaptados. O futebol moderno pede desequilíbrios onde eles não se esperam, pede largura e intensidade. João Pereira tem capacidade de dar tudo isto e já o vem provando há algumas épocas. Queremos mais disto na Islândia.

Ricardo Carvalho, saber comandar

O auto-golo não invalida a bela amostra deixada no Dragão. Cortes preciosos, cirúrgicos, capacidade de comandar e ordenar as peças que o rodeiam. Os ares de Madrid e a companhia diária de José Mourinho estão a fazer-lhe bem.

Christian Poulsen, inteligência nórdica

A Dinamarca nunca pareceu ter capacidade para discutir o jogo. É uma selecção acessível e carregada de jogadores vulgares. No meio da mediocridade, a inteligência de Christian Poulsen acaba por se elevar. É o patrão dos nórdicos e fez um jogo interessante.