Combinámos hora e meia antes do jogo. Chego pontual e vou entrando na favela. O Doctor vem a correr. Surge cansado, ofegante, entra no carro e dá instruções. O Doctor é o empregado de hotel que serve também de segurança. Nasceu no bairro e viveu lá toda a vida. «Aqui ninguém te chateia», assegura.

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Passamos por uma dúzia de casas, algumas de cimento, outras de zinco, outras de madeira. Todas mal construídas e mal arranjadas. Um minuto depois estamos a parar à porta da tasca onde vamos ver o jogo. «Aqui há dois cafés, mas este é melhor», garante. «O outro é mais para os miúdos. Não é um bom sítio.»

O café é pequeno, mas mete respeito. Uma grade protege quem está do outro lado do balcão. Há duas televisões, ambas antigas. Há chão de cimento e tecto de zinco. Há grades de cerveja e uma mesa de bilhar. Há bandeiras das selecções que participam no Mundial. E há garrafas que se acumulam em todos os cantos.

As pessoas entram e saem. Todas param e olham. Passam uns segundos e voltam a olhar. A maior parte vem cumprimentar: «Boa sorte Portugal». Na favela de Ga Mohale, junto a Magaliesburgo, não há dúvidas: branco aqui, tem de ser português. Pedimos uma cerveja, saímos para a rua e matamos o tempo à conversa.

Estranhos chegam e entram no diálogo. James Mogale, por exemplo, insiste que vá à sua casa. «Tens de ver as minhas crianças», diz. «São mais de cem.» Tem um orfanato improvisado. «Se o Ronaldo as vir, talvez queira ajudar» Não chego a ir, o tempo passa a correr. A tasca enche-se num instante.

Lá dentro toda a gente torce por Portugal. Há gritos e vuvuzelas. Há camisolas de Portugal. Há até umas luvas de Eduardo. Pertencem a Vuyisile Silwane, um rapaz de vinte e poucos anos que quer de ser tratado por Celebrity. «I'm a celebrity», responde. «Celebrity, give me a cigarrette», ouve-se logo ali ao lado.

Foi Eduardo quem lhe deu as luvas. Tal como o parka que traz vestido. É apanha-bolas nos treinos da Selecção e não pára calado. «Sou assim chegado ao Eduardo», diz, juntando os dedos indicadores. Já fala embalado pelo álcool que não pára de correr. Em garrafas de cerveja de litro, que passam de mão em mão.

Na favela tudo anda de mão em mão: cerveja, vinho, tabaco. Se três pessoas vão fumar e cada uma acende um cigarro, as três fumam dos três cigarros. «Aqui partilhamos tudo», dizem. Seja. A primeira parte passa num instante. Ao intervalo já há gente que sai para a rua a cambalear: é muito álcool que circula.

O álcool que não pára, aliás. Durante a segunda parte o ambiente fica mais agressivo. Há gritos, há provocações, há gente que festeja o golo da Espanha. Blondie Silwane, o irmão do Celebrity, faz-me sinal para irmos fumar um cigarro lá fora. «O que se passa com Ronaldo?», pergunta. «Portugal não tem força para eles.»

À porta da tasca dois homens embrulham-se em empurrões. Um outro encosta uma mulher à parede, ela diz que sim e seguem caminho. Voltamos para dentro do café. Os últimos minutos são penosos. O jogo acaba e há tristeza no ar. Saio rápido e toda a gente se despede. «Lamento por Portugal», ouve-se.

Já junto ao carro, chega uma mulher a correr. «Queria agradecer-lhes por tudo o que fizeram por Magaliesburgo», diz. «É um legado que Porugal deixa.» Fala de coisas simples: estradas e iluminação. Fala também de postos de trabalho. Não lhe sei o nome, só que trabalha no Wimpy. «Obrigado e até sempre.»