Mais vale perder um amigo do que perder uma boa piada

Provérbio popular

São raros os casamentos felizes entre futebol e humor. E ainda mais raros os jogadores com carreiras de sucesso que fizeram questão de exibir regularmente um sentido de humor apurado. Talvez isto ajude a explicar o facto de Len Shackleton, um dos mais dotados futebolistas ingleses da sua geração, ter terminado uma carreira profissional de 18 anos com apenas cinco chamadas à seleção e nenhum título sonante conquistado. E no entanto, quem o viu jogar nunca poupou elogios à técnica invulgar com que dominava as pesadas bolas de cabedal, dos anos 40 e 50, fazendo-as tão dóceis e precisas como as leves bolas sintéticas dos nossos dias.

Interior esquerdo o percurso do jovem e promissor Shackleton começou com uma desilusão: durante um ano, não conseguiu impor-se na equipa principal do Arsenal, clube ao qual se tinha oferecido em 1938, como amador, e onde ganhava o sustento tratando do campo e dos equipamentos.

Rejeitado pelo técnico George Allison, Shackleton voltou à terra natal, Bradford, sarando as feridas com o primeiro contrato semiprofissional. Quem for dado a leituras psicanalíticas poderá encontrar aí uma base para a tendência de não levar o futebol demasiado a sério – e, principalmente, de não dar mostras de um especial apreço pela autoridade.

Certo é que, mesmo com a II Guerra Mundial, o futebol não parou: no Bradford, Shackleton continuou a jogar e cumpriu o serviço comunitário alternativo, como mineiro, enquanto acumulava jogos (217) e golos (171) nas Ligas regionais que mantinham a chama acesa durante o blitz. A média foi tão impressionante que, assim que a guerra acabou e os campeonatos voltaram, o Newcastle acenou com um cheque de 13 mil libras e Shackleton foi ajudar os magpies a subir à primeira divisão.

Nem toda a gente se estreia marcando seis golos pelo novo clube. Shackleton fê-lo. Mas logo nesse primeiro dia, o exibicionismo de que deu mostras custou-lhe algumas inimizades no interior da equipa. Talvez a culpa fosse da Guerra, e dos campeonatos pouco competitivos onde se moldou: para Shackleton entreter o público era tão ou mais importante do que vencer. E, por isso, não se poupava a esforços: sentava-se em cima da bola com o jogo a decorrer, parava um movimento de drible para pentear o cabelo ou olhar para o relógio e não deixava passar um pretexto para abrilhantar os lances, com um toque de calcanhar ou uma habilidade imprevisível.

Os aplausos e sorrisos da bancada eram a sua maior recompensa – mas nem todos os colegas estavam dispostos a entrar na brincadeira. O capitão do Newcastle, Joe Harvey, terá confidenciado a um diretor, quando a equipa lutava para garantir a promoção: «com ele na equipa nunca vamos ganhar um troféu». E, apesar do apreço que os adeptos dos magpies tinham por ele, no mesmo verão em que chegou ao escalão principal, o Newcastle aceitou a oferta dos rivais do Sunderland (20 mil libras) e desfez-se do seu principal entertainer.

Shackleton nunca perdoou a forma pouco cerimoniosa como foi encaminhado para a saída, após 57 jogos e 25 golos. Data dessa zanga uma das suas frases mais famosas:

Não tenho preconceitos em relação ao Newcastle: é-me totalmente indiferente qual é a equipa que lhes ganha

 

Favorito entre os adeptos da sua equipa, mas alvo da desconfiança de treinadores e torcedores adversários, Shackleton tornou-se um daqueles nomes que dividiam as opiniões em permanência. Walter Winterbottom, nomeado selecionador inglês em 1946, estava do lado dos críticos. Uma vez, ao ser questionado por um jornalista sobre a possibilidade de convocá-lo, respondeu secamente: «O jogo é em Wembley, não é no London Palladium».

«Tudo o que os dirigentes sabem sobre futebol»

À primeira oportunidade que lhe foi concedida na seleção, Shackleton deu razão às desconfianças: perdeu uma bola a tentar driblar em zona defensiva e cometeu uma falta que a Escócia transformou no único golo do jogo. Isso custou-lhe uma ausência de dois anos, que retribuiu com um desprezo mal disfarçado pelos métodos de Winterbottom.

No obituário que lhe escreveu quando Shackleton morreu de ataque cardíaco, em novembro de 2000, o mítico jornalista britânico Brian Glanville contou um episódio eloquente: na segunda convocatória de Shackleton, o selecionador exigia que a linha de cinco avançados fizesse séries de passes em alta velocidade, em situação de ataque, para concluir na pequena área, sem oposição e sem guarda-redes: «Dez passes e depois bola na redes», explicou. Shackleton, para quem a coisa parecia ridiculamente fácil, fez-se de inocente: «Sim, mas de que lado da rede: dentro ou fora?»

Com respostas destas, não surpreende que Winterbottom só chamasse o humorista cabotino quando não tinha outras alternativas mais sérias, deixando-o fora das seleções que participaram, sem sucesso, nos Mundiais de 1950 e 1954. E foi precisamente no outuno de 1954, já com 32 anos, que Shackleton teve a sua única tarde de glória com a camisola da Inglaterra: uma vitória por 3-1 sobre a Alemanha, recém-sagrada campeã do mundo. Nessa tarde, em Wembley, as combinações com Stnaley Matthews deram finalmente uma medida aproximada do seu talento. E a forma como apontou o terceiro golo, com uma finalização em chapéu curto (pensem no golo de Messi ao Arsenal) foi a cereja no topo de um bolo que este filme da British Pathé ilustrou para a posteridade:

Feliz no Sunderland, onde cumpriu nove temporadas, Shackleton jogou até aos 35 anos, altura em que uma lesão no tornozelo o obrigou a abandonar os relvados de vez. Com uma noção de espectáculo cada vez mais refinada, anunciou o fim da carreira no centro do relvado, rodeado por jornalistas: atirou uma moeda ao ar, dominou-a com o pé, e voltou a chutá-la para cima, apanhando-a no bolso.

Por essa altura, já tinha publicado a sua biografia, em que assumia, com orgulho, a alcunha que os críticos lhe tinham posto: «O palhaço príncipe do futebol». No meio, incluía um capítulo com o pomposo título «Tudo o que os dirigentes sabem sobre futebol». E o conteúdo era, evidentemente, uma página em branco.

Song For Len Shackleton (Chumbawamba)

I'm not the kind of man
Who'd live a quieter life
Just for a minute's silence
(One, two, three, four)

Some say it all without a word
Silence can be mightier than the sword

They took the two three five
They turned it upside down
Why run away to the circus
When the world is full of clowns?

Live has got everything to offer
It's just there for the getting
There, just for the getting

Soldados desconhecidos é uma rubrica dedicada a figuras pouco conhecidas da história do futebol, com percursos de vida invulgares.