Se vos parece excessivo, lembrem-se: nos primeiros 40/50 anos de existência, o futebol foi praticamente aquilo que Inglaterra e Escócia quiseram fazer dele, antes de as suas versões exportadas pelo mundo ganharem identidade própria. E isso põe Glasgow no centro desta história: não só por o estilo escocês encarnar, nessa pré-história do jogo, uma forma predecessora do futebol de toque, mais tecnicista e menos atlética do que a inglesa, mas também porque as suas principais equipas – primeiro o Rangers e o Queens Park, depois o Celtic – geraram culto e entusiasmo tais que ajudaram a transformar a modalidade emergente num fenómeno de multidões. E não é exagero dizer que a acústica, os cânticos, e a forma como os espectadores se tornaram, pouco a pouco, parte da magia, foram tão importantes para o crescimento do futebol como as inovações técnicas e táticas que aconteciam nos relvados.

Na viragem do século XIX para o XX, da Escócia para a Inglaterra e da Grã-Bretanha para o Mundo, os estádios começavam a tornar-se viveiros de novos hábitos sociais, tradições e rituais. Entra em cena Archibald Leitch, um filho de ferreiro que, a grande custo da família, conseguiu formação como engenheiro, em 1881, com apenas 16 anos. Os seus primeiros anos de vida deixam o perfil de um jovem ambicioso, que durante oito anos corre mundo como engenheiro naval antes de se fixar novamente em Glasgow. Especializando-se em projetar fábricas, Leitch torna-se mação e desenvolve uma importante rede de contactos na capital económica da Escócia.

Depois, o acaso desempenha um papel: após casar, Leitch muda-se para uma rua adjacente ao velho estádio de Ibrox, onde o Rangers reclama o título de melhor equipa do mundo. O engenheiro apaixona-se pelo jogo e pelo clube e, em 1899, sabendo que o contrato de aluguer das velhas instalações está a chegar ao fim e que o Rangers precisa de uma nova casa, Leitch tem o golpe de asa que lhe muda a carreira e a face do futebol: baseando-se na experiência de projetos de edifícios industriais, põe à disposição do clube, gratuitamente, um projeto inovador de um estádio capaz de acolher 80 mil espectadores.

Orador eloquente, e na vanguarda da tecnologia, Leitch convence os dirigentes do Rangers ampliando-lhes os desenhos na parede, com recurso a uma lanterna mágica, predecessora dos projetores. Nascia assim o novo Ibrox, o maior estádio do mundo, à data. Com ele, nascia também a fama do homem que o idealizou. Ainda nesse ano, Leitch é convidado a desenhar novas bancadas para o campo do Kilmarnock e do Sheffield United, e torna-se o nome de referência numa área em expansão acelerada: a construção de estádios.

Entre duas tragédias

Concluído em 1900, Ibrox torna-se candidato natural a receber o Escócia-Inglaterra, o jogo dos jogos, que se realiza alternadamente em Londres e Glasgow. A estreia fica marcada para 5 de abril de 1902, e os jornais desse dia exibem uma foto de Leitch, anunciando a sua presença na tribuna de honra do «seu» estádio, a assistir à partida. É daí que, aos 51 minutos, assiste, horrorizado e impotente, à derrocada de uma parte da bancada superior na Tribuna Oeste, construída em madeira. Centenas de espectadores precipitam-se de uma altura de 12 metros, 26 morrem no local, mais de 500 escapam com ferimentos mais ou menos graves.

Leitch, devastado, enfrenta as críticas e é chamado a depor em tribunal. A acusação dirige-se para o fornecedor de madeiras, que teria vendido material defeituoso para a obra. Nada se prova, e ninguém é punido. Mas Leitch, cuja reputação é posta em causa por alguns pares, tira ilações da tragédia e revoluciona a forma de construir estádios.

O projeto de White Hart Lane (Tottenham)

Até aí, as bancadas consistiam em degraus de madeira, suportados por uma estrutura de perfis de aço. Depois do acidente, essas estruturas são substituídas por bancadas assentes num aterro, ou em betão armado. E em lugar dos varandins de madeira, as guardas em tubos de aço tornam-se omnipresentes, passando a ser a norma na delimitação de setores e bancadas, até final dos anos 70. Superando a tragédia, Leitch torna-se o homem que redefine as regras. Em oposição aos anfiteatros de inspiração greco-romana, que acompanhavam o crescimento dos Jogos Olímpicos, são os seus desenhos de recintos retangulares, de perfil industrial, assentes em aço e betão, que delimitam a nova alma dos palcos de futebol.

Até 1939, ano da sua morte, com 74 anos, a lista de clientes ilustres não parou de crescer: total ou parcialmente, Leitch assina os projetos de Highbury (Arsenal), White Hart Lane (Tottenham), Stamford Bridge (Chelsea), Old Trafford (Manchester United), Goodison Park (Everton), Anfield (Liverpool), Villa Park (Aston Villa), Craven Cottage (Fulham) e até o Celtic Park, em Glasgow, para os rivais do Celtic. Ao todo, o antigo engenheiro naval intervém em 40 dos estádios mais importantes da Grã-Bretanha, com a notável exceção de Wembley, que apresentava um conceito radicalmente diferente, tanto no plano estético como político.

Durante décadas a fio, bem depois da sua morte, o legado de «Archie» Leitch permanece vivo – nas fachadas, nas bancadas, mas também nos cânticos e na acústica ensurdecedora dos estádios ingleses, ponto de partida para a lenda das míticas bancadas de peão, como o Kop. 

Foi uma nova tragédia, ocorrida em 1989, a determinar a sua segunda morte:  as 96 vítimas mortais de Hillsborough - um palco cuja bancada principal Leitch tinha desenhado, em 1915 - vieram forçar uma nova revolução nas regras de construção dos estádios, sintetizadas no relatório Taylor, que afastava o futebol das suas raízes proletárias e industriais e encaminhava para os novos estádios um público de classe média: estava criado o caminho para a era da TV e a chegada da Premier League. 

A fachada de Craven Cottage (Fulham)

90 anos depois de ter sido projetada nas paredes da sede do Rangers, a visão de Leitch tornava-se irremediavelmente obsoleta, mesmo que algumas das suas obras - como a fachada de Craven Cottage - resistam, classificadas como relíquia de um tempo em que as emoções se concentravam em palcos retangulares. Palcos feitos em aço e betão armado e apoiados no material de que são feitos os sonhos.

Soldados desconhecidos é uma rubrica dedicada a figuras pouco conhecidas da história do futebol, com percursos de vida invulgares