Chamava-se Almir Moraes de Albuquerque mas, por ser natural de Recife, capital de Pernambuco, ganhou a alcunha de Almir Pernambuquinho, logo aos 19 anos. A idade com que chegou ao Vasco da Gama, para prosseguir de uma linhagem de conterrâneos ilustres, como Ademir Queixada e Vavá Peito de Aço: nas décadas de 40 e 50 a linha atacante do Vasco parecia coutada de pernambucanos.

Avançado baixo (1,67) e agressivo, Almir não demorou muito a tornar-se um ídolo para os vascaínos. Mas, em paralelo com as proezas nos relvados (50 golos em três anos e o título carioca de 58), o temperamento explosivo e conflituoso e os roteiros noturnos bem referenciados começaram a criar-lhe a fama de jogador difícil. Apadrinhado e protegido pelo capitão de equipa, Bellini, em cuja casa encontrou porto de abrigo, Almir apressou-se a viver a vida a todo o gás: solteiro, famoso e com dinheiro no bolso, não poucas vezes seguiu direto dos bares para o treino.

Almir e Garrincha em 1958

Entre outras coisas – como a recusa em integrar um estágio de preparação – essa fama terá contribuído para que um dos melhores jogadores brasileiros do momento tivesse falhado a convocatória para o Mundial de 1958, o primeiro ganho pelo escrete. Almir perdeu aí o comboio da fama global, conquistada nesse ano por Pelé, Garrincha, Didi e o seu colega de equipa Vavá, entre outros. A sua estreia na seleção chegou apenas em março de 1959, numa Copa América disputada na Argentina. Foi simplesmente inesquecível, embora pelas razoes erradas.

Suplente de Pelé, Almir saltou para a titularidade no quarto jogo do Brasil, diante do Uruguai. O Maracanazo de 1950 estava ainda bem presente nas memórias, e a agressividade de Almir foi considerada útil para manter os uruguaios em respeito. As indicações terão sido seguidas demasiado à risca: aos 32 minutos, na sequência de uma bola dividida, Almir, bem ao seu estilo, não evitou o choque com o guarda-redes Leiva, desencadeou a fúria dos defesas uruguaios e respondeu a soco.

O sururu daí resultante foi épico e durou quase 20 minutos. O jogo ganhou direito a alcunha: «a batalha do Rio da Prata». Com nove para cada lado – Almir foi um dos quatro expulsos – o Brasil ganhou por 3-1 e Didi, apesar de um olho inchado, resumiu a coisa no fim do jogo: «Ganhámos na bola e ganhámos no braço».

A batalha do Rio da Prata

A relação desgastada com a torcida fez com que os dirigentes do Vasco aceitassem negociar Almir com o Corinthians, em 1960. O rótulo de Pelé branco foi demasiado pesado para o craque, que ao fim de um ano sem relevância, optou por rumar à Argentina, e ao Boca Juniors.

Aí somou mais socos do que golos: foi o início de um périplo sem sucesso, sempre marcado pelo mesmo padrão de expetativas altas, problemas extradesportivos e cenas de violência, no campo ou fora dele. Depois do Boca, Almir tentou a sorte em Itália, com passagens discretas pela Fiorentina e pelo Génova, mas foi preciso o regresso ao Brasil, em 1963, para que a chama se reacendesse.

Quando Almir foi Pelé

Contratado pelo Santos para suplente de Pelé, Almir teve a sua noite de glória em novembro de 1963. Corrigindo: foram duas noites, aquelas em que entrou em campo com a camisola 10 do Santos, para ocupar a vaga do «Rei», que se tinha lesionado na primeira mão da Taça Intercontinental, com o Milan (vitória dos italianos por 4-2).

O segundo jogo foi marcado para o Maracanã onde, a 14 de novembro, apoiado por mais de 150 mil adeptos e um imparável Almir, o Santos fez o milagre. A perder por 0-2 na primeira parte, aproveitou a chuvada que caiu ao intervalo e, com Almir a marcar um golo e a oferecer outro a Pepe, acabou por dar a volta ao marcador: 4-2 e terceiro jogo para a atribuição do troféu. Pelé entrou no balneário e foi direito ao seu suplente para lhe dar um abraço imortalizado em foto. «Almir, você é grande», elogiou o Rei. «Ele talvez nem se lembre, mas aquelas palavras me deram força para o outro jogo», recordou Almir mais tarde.

O abraço de Pelé

Apenas dois dias mais tarde, o Maracanã voltou a testemunhar Almir em estado de graça, a levar o Santos à vitória, graças a um penálti arrancado a Maldini; à meia hora. O avançado percebeu que o italiano ia entrar com o pé alto e não teve dúvidas - pôs a cabeça na frente, sendo pontapeado com violência: «Eu sabia que poderia ter ficado cego, ou morrido, mas tinha de fazer aquilo», contou. Dalvo cobrou o penálti, Maldini foi expulso e o Santos venceu por 1-0, tornando-se bicampeão mundial, com Almir a ser novamente herói na volta triunfal.

O penálti de Maldini sobre Almir

Anos mais tarde, num polémico livro-entrevista em que aceitou revelar o lado obscuro da carreira («O Futebol e Eu»), Almir revelou ter jogado dopado com os italianos: «Entrei em campo muito doido. Por que razão eu não iria querer usar? O prémio era de 2 mil cruzeiros, dava para comprar um Volkswagen zero quilómetros». E sugeriu, ainda, que o árbitro – o argentino Juan Brozzi – estaria «amaciado» pelos dirigentes santistas. Por essa altura, Almir já pouco ou nada teria a perder.

Regresso ao Rio e decadência

Transferido para o Flamengo, em 1965, o avançado ainda brilhou na conquista do campeonato carioca desse ano. Mas a ligação à bebida e à vida noturna era cada vez mais incompatível com o estatuto de craque. E quando, em 1966, na decisão do campeonato carioca com o Bangu, o Flamengo foi derrotado por 3-0, Almir não conteve a raiva e desencadeou a maior cena de pancadaria de uma carreira invulgarmente rica nesse aspeto. O Flamengo perdeu o título, mas o Pernambuquinho conseguiu o que queria: acabar com o jogo e impedir que o adversário recebesse o troféu perante os seus adeptos

.

Esse foi o seu último momento digno de registo nos relvados. A partir daí um declínio foi rápido: em 1967 passou para o América, onde se apresentou irreconhecível, com peso a mais e quase sem cabelo. E menos de um ano depois acabava a carreira, entregando-se à boémia e a uma vida de passividade, à espera de convites para treinar, que nunca chegaram. Amargo e ressentido, aceitou derrubar tabus na extensa entrevista em que assumiu o uso de doping, subornos e um sem-número de irregularidades que lhe valeram o rótulo definitivo de «marginal».

As revelações polémicas

«Muitos episódios de minha carreira ajudaram a formação dessa imagem a meu respeito. Eu quebrei a perna de um companheiro de profissão, Hélio, do América, que depois desse acidente nunca mais voltou a jogar bola. Briguei com o time inteiro do Bangu, quando o Flamengo, perdeu a decisão do Campeonato Carioca de 1966. Paralisei o time do Milan aqui no Maracanã, em 1963, nos dois jogos em que o Santos se sagrou bicampeão mundial. Dei um chega-para-lá em Amarildo, que jogava por eles, chutei a cabeça do goleiro Balzarini, e assim abri caminho para a nossa vitória. Dei muito soco e pontapé em jogadores da seleção do Uruguai, quando o Brasil se sagrou vice-campeão sul-americano de 1959, em Buenos Aires. Agredi jogadores de outros times, briguei com tantos que até perdi a conta.» resumia no depoimento, já consciente de que não seria o seu talento a ficar para a história.

O fim

«E foi morrida essa morte,irmãos das almas, essa foi morte morrida ou foi matada?»

João Cabral de Melo Neto «Morte e vida Severina»

A morte do Pernambuquinho foi súbita e violenta, em rima sombria com o seu trajeto nos relvados. Foi há precisamente 43 anos, a 6 de fevereiro de 1973. O ex-jogador, com 35 anos, estava com três amigos num bar em Ipanema quando se desencadeou uma discussão. As versões são contraditórias, mas é certo que um grupo de dançarinos vanguardistas, «Dzi Croquettes», estava no mesmo bar e esteve no epicentro de provocações. Daí a ameaças e agressões foi um pequeno passo: a briga alastrou pelo bar como um rastilho.

Almir, sempre de cabeça quente, virou-se para um grupo de portugueses e terá esbofeteado o mais novo. O pai deste, Artur Soares, sentindo-se ameaçado, puxou de uma pistola, e Alberto Russo, amigo de Almir, fez o mesmo. Na troca de tiros, Almir foi alvejado na cabeça e teve morte imediata O atirador alegou legítima defesa e nunca foi julgado. Ninguém que tivesse acompanhado a parte final do seu trajeto terá ficado surpreendido com a morte matada do Pernambuquinho.

Soldados desconhecidos é uma rubrica dedicada a figuras pouco conhecidas que também fizeram a História do futebol.