Nesta segunda-feira, quando for divulgada a atualização do ranking ATP, haverá um fenómeno sem precedentes desde há mais de uma década: a presença de um jogador de 17 anos entre os 100 melhores do mundo. Desde a viragem para o século XXI, apenas dois jogadores o tinham conseguido: o francês Richard Gasquet e o espanhol Rafael Nadal, ambos em 2003. Foi precisamente uma vitória sobre Nadal, nos quartos de final do torneio de Basileia, na sexta-feira, que permitiu juntar um terceiro sócio a este clube de elite: o croata Borna Coric (pronuncia-se Chórich e sim, vai dar pretexto para algumas piadas pouco imaginativas), o novo prodígio do ténis mundial.

Não foi a primeira vez que Coric cruzou destinos com o tenista espanhol, um dos seus dois ídolos de infância - o outro é Goran Ivanisevic, primeiro croata a ganhar um Grand Slam (Wimbledon, em 2001). Há menos de um ano, Nadal e Coric tinham trocado as primeiras bolas, de forma bem mais informal: atento aos resultados notáveis do croata no circuito júnior, o tenista espanhol tinha-o convidado para uma semana de treino em Maiorca. Coric não esconde que a experiência operou maravilhas na sua motivação e cimentou ainda mais a certeza de que tinha chegado a altura de competir com os grandes.

Menos de um ano depois, fã de boxe, natural de Zagreb, estava a culminar perante o mestre a semana mais intensa da sua curta carreira, a quinze dias de completar 18 anos. Precisamente na semana em que anunciou o fim da ligação profissional com o técnico britânico Ryan Jones, que guiou a sua formação desde 2012 e o fez trocar Zagreb pelo Middlesex, Coric entrou no torneio com um wild card da organização e começou por dar nas vistas afastando o letão Ernest Gulbis, número 13 do ranking e, a seguir, o cazaque Andrei Golubev (66º).

O obstáculo seguinte parecia superior às suas capacidades atuais, mas um misto de frieza e sorte permitiu a Coric tornar-se o primeiro jogador de 17 anos a vencer um top-3 mundial, desde 2004. O último a conseguir a proeza? Rafael Nadal, perante Roger Federer. É verdade que o espanhol surgiu em Basileia em claras dificuldades: poucas horas antes de entrar no court para defrontar Coric, Nadal tinha anunciado a desistência da final do Masters, em Paris, devido a uma persistente apendicite. Mas nada fazia prever o que aconteceu nos primeiros minutos do encontro: explorando as intermitências de Nadal com uma frieza impensável para alguém da sua idade, Coric levou o marcador para 5-0 enquanto o público suíço abria a boca de espanto.

Depois, dando mostras de solidez, resistiu a recuperação do espanhol, que venceu dois jogos seguidos antes de entregar o primeiro set (6-2). Mas foi no segundo, perante um Nadal mais próximo do seu valor, que Coric mostrou ser um jogador muito mais consistente do que os seus 17 anos permitiriam pensar: apoiando-se num serviço tecnicamente irrepreensível, não permitiu um único break a Nadal, decidindo a partida a seu favor no desempate, sem vacilar (7-4).

Na meia-final de sábado, o sensacional belga David Goffin, um dos grandes animadores deste final de temporada, fez com que o miúdo de Zagreb voltasse à terra. Mas a derrota, em três sets, esteve longe de empalidecer a sua estrela ascendente: fazendo jogo igual perante um dos jogadores em melhor forma no circuito (4-6, 6-3 e 3-6), Coric reforçou a ideia de que a sua entrada no top-100 será apenas uma etapa de passagem. Depois da vitória sobre Nadal, ficou assim adiado o encontro com o «monstro» Federer - alguém cuja foto Coric garantiu que já não seria capaz de pedir: «Mesmo querendo-a muito, não seria profissional», disse em mais uma demonstração de frieza e maturidade.

«Se alguém me tivesse prometido uma semana assim eu ter-me-ia rido na sua cara antes dee lhe virar as costas. Ou então ficava assustado por pensar que estava perante um louco», brincou o jovem que pegou numa raquete pela primeira vez com cinco anos, para imitar o pai. «Acho que já estou nos 100 e o meu objetivo para este ano era fixar-me no top-200, por isso muita coisa andou depressa desde janeiro», reconheceu com um misto de realismo e ambição que é difícil encaixar num rosto tão adolescente: «O meu objetivo é chegar a número um do mundo, mas as coisas fazem-se devagar. Não é por ter ganho a alguns dos melhores que estou pronto, até porque a partir de agora todos os jogadores nos 150 primeiros vão ter ainda mais vontade de derrotar-me», lembrou.

Que Coric tem um potencial raro, é opinião unânime de quem o tem visto em ação. Que está ainda muito longe de o cumprir em pleno, também – e essa é uma ideia algo assustadora, a reforçar a convicção de que dificilmente o seu talento ficará sem recompensa: de 2001 para cá, apenas 26 jogadores entraram no top-100 antes de completarem 20 anos. Desses, 22 chegaram ao top-20 e 19 entraram no top-10.

A afirmação de Coric, tal como a do australiano Nick Kyrgios, - que também venceu Nadal em 2014 e é o atual 54º do mundo, com apenas 19 anos - entra em contraciclo com a tendência recente no circuito mundial, que viu subir em 3,5 anos a média de idades no top 100 entre os anos 80 e a atualidade.

Com 28 anos como média de idades dos jogadores top-10, parece mais longe do que nunca a gloriosa década de 80, em que jogadores como Boris Becker, Mats Wilander e Michael Chang venciam torneios do Grand Slam ainda antes de completarem 18 anos. O último a conseguir proeza aproximada foi precisamente Rafael Nadal, que venceu Roland Garros em 2005, com 19 anos recém-cumpridos. Numa altura em que a era dos três gigantes (Federer-Nadal-Djokovic) está a chegar ao fim, e em que o espaço para a sua sucessão está aberto, quem sabe se não estará aí o pretexto para que os destinos de prodígio e mestre voltem a cruzar-se em breve?