Esta é uma história incrível, de uma luta interna, física e mental, e de altruísmo. É uma história das qualidades humanas. Não só da protagonista, mas também de outros. É um conto de sobrevivência, de heróis e de um amor incondicional. É a história de Turia Pitt, que nesta semana terminou o Ironman Hawai, considerada a mais difícil das ultramaratonas.

A vida de Turia Pitt cumpria o sonho. Aos 24 anos, tinha acabado de mudar-se para Kununurra, Western Australia (Austrália Ocidental), com o namorado. Licenciada em Engenharia Geológica e de Minas, esta filha um surfista australiano e de uma escritora haitiana fez trabalho de modelo antes de conseguir o emprego que sempre quis: trabalhar na Rio Tinto, uma das maiores empresas do setor. Porém, em setembro de 2011, a vida iria mudar, sem retorno possível.

Turia Pitt decidiu correr uma ultramaratona em Kimberley, na mesma região em que habitava. A dureza do outback australiano, onde nada existe, era o desafio. Para além dos 100 kms da prova. No entanto, um repentino fogo florestal, com o vento por trás, apanhou Turia Pitt e mais participantes…

«Nos últimos três anos, fiz mais de cem operações e comi mais de 864 refeições de hospital. São 864 a mais do que qualquer pessoa deve ter», disse em 2014.A engenheira de 24 anos lutou pela vida.

«A determinada altura comecei a chorar. Depois parei e cobri a cabeça com o meu casaco, porque não havia nenhum sítio para onde pudesse ir. Ficava cada vez mais quente e quente e quente, não suportava o calor e, por isso, levantei-me e tentei correr. Foi aí que fiquei queimada. Quando o fogo passou, tudo era apenas negro e quente.»

Outra triatleta, Kate Anderson conseguiu chegar a uma abertura. Mas ficou queimada quando tentou apagar as chamas que lhe queimavam a roupa. Quatro participantes salvaram as duas mulheres, usaram casacos e outros materiais para as proteger do sol abrasador e deram-lhes água. Esses são os primeiros heróis desta história.

Os segundos são os pilotos do helicóptero que resgataram as vítimas. As distâncias para alguma coisa são grandes no deserto australiano. A única coisa que fica perto é… nada. A ajuda demorou quatro horas a chegar. A violência das chamas e o terreno obrigaram o helicóptero a aterrar num só esqui de pouso. Outro sem tanta perícia não o conseguiria, provavelmente.

Um excerto da reportagem do programa 60 Minutes

Michael Hoskins estava em Darwin, no Northern Territory (Território do Norte) da Austrália, a tratar de negócios. Michael deixara o emprego na polícia em Ulladulla, na costa de New South Wales, para seguir com a namorada para as minas, a norte. Estava na capital do estado nortenho quando soube do sucedido.

Quando a namorada aterrou no hospital de Darwin, Michael e os pais de Turia enfrentaram os médicos. E foram preparados para esperar o pior.

O único sinal de esperança eram os olhos, poupados à fúria das chamas.

Turia contou à revista Friday: «Ele perguntou-me: Como te sentes? Eu amo-te, querida. Não estás contente por estar viva? Lembro-me de pensar que, se pudesse responder, por entre a dor e os tubos pela garganta, lhe teria dito: Não!»

A ultramaratonista australiana recuperou das principais lesões, mas ainda tinha um longo caminho pela frente.

«Uma vez, dois fisioterapeutas estavam a tentar ajudar-me a subir um pequeno degrau. O Michael estava a aplaudir, a bater palmas, como se eu tivesse terminado uma prova de triatlo. Mas eu estava envergonhada e acabei por me chatear com ele. Não conseguia falar, portanto fazia má cara, à espera pura e simplesmente que ele desistisse de mim. Nunca o fez. Estava ao meu lado entre as 7 da manhã e as 7 da noite. Se ele acreditava em mim, eu também tinha de acreditar.»

Quando Turia Pitt saiu do hospital, a vida em casal recomeçou. Diferente, é óbvio, mas ainda assim uma vida de partilha. Michael deixou o emprego para tratar da namorada, que agora usava uma máscara.

 

«Aprendeu a mudar-me a roupa e a dar-me de comer. (…) nem por uma vez me tratou diferente do que fazia antes. Estava apaixonado pela minha personalidade e isso eu não perdi.»

Também houve outro tipo de luta. Legal. As vítimas do fogo questionaram no tribunal os organizadores do evento pela falhas na organização, sobretudo na comunicação com as autoridades de segurança e emergência. Anos depois, chegaram a um acordo. No entanto, a maior luta de Turia Pitt era com ela própria.

O programa 60 minutes acompanhou-a de volta a Kimberley. Ao contrário das outras vítimas, Turia Pitt preferiu não regressar ao local em que o fogo a transfigurou. «Se tens um pesadelo, queres voltar a tê-lo?», questionou.

Pitt meteu uma pedra sobre o passado e começou a olhar o futuro. Ao lado de Michael começou a preparar-se para voltar à competição. Fê-lo na Austrália, mas o Hawai era o desafio final.

«Por causa das minhas queimaduras, não posso regular a minha temperatura corporal, portanto tenho de fazer alguns ajustes ou usar os equipamentos para triatlo de outro modo. Vou usar um kit para hidratar a minha pele, em vez de repelir o suor. E vou precisar de coisas tipo mangas de arrefecimento e roupa branca, para não aquecer.»

A bicicleta também teve de ser transformada: Pitt teve quatro dedos da mão esquerda amputada e o polegar da direita.

O Ironman Hawai consiste de 226 kms: 3.8 kms de natação, 180 de bicicleta e 42k de corrida: Pitt terminou-o ao fim de 14h37m30s.

No final, lá estava Michael, claro. Porque o que ele dizia em 2012 à News Ltd ainda é válido: «Ela é linda, sabem. Ela é incrível.» E ele também.