Por: Francisco Sousa

Quem diria que um drone seria capaz de provocar um autêntico tumulto no futebol, no desporto em geral e na relação entre dois países? Pois bem, a mensagem de apoio a uma Albânia «grande e autóctone» que sobrevoou o estádio do Partizan trouxe agarrada a ela décadas e décadas de rivalidades exacerbadas. O que se seguiu foi uma confusão imensa, com jogadores, equipas técnicas e público a participarem num espetáculo deplorável, que trouxe à tona muitos fantasmas do passado.

No dia em que a UEFA irá decidir quais os castigos a aplicar a Sérvia e Albânia, o Maisfutebol fez um levantamento de alguns episódios tristes que ocorreram no desporto em geral, ao longo dos últimos 25 anos. Desde futebol a basquetebol, passando (pasme-se!) pelo ténis, há um conjunto de datas marcantes pelos piores motivos e que, de certa forma, precipitaram conflitos de cariz político e bélico:

1. Dinamo Zagreb-Estrela Vermelha, 1990

Há quem diga que este duelo entre duas das melhores equipas jugoslavas à época serviu como uma espécie de tiro de partida na Guerra Civil que se iniciaria no ano seguinte. No dia 13 de Maio, Dinamo e Estrela Vermelha defrontavam-se em Zagreb, poucos dias depois de um referendo no qual os croatas votaram a favor da independência. Os sérvios lançaram cânticos provocatórios e os croatas responderam com uma invasão de campo e consequente batalha. Centenas de adeptos e polícias ficaram feridos, num conflito que fica marcado, claramente, pela agressão de Boban, mítico internacional croata dos anos 90, à época no Dinamo Zagreb, a um polícia que estava a violentar um adepto da formação croata. Aquele ato, tornou Boban num herói nacional e, ao mesmo tempo, uma persona non-grata em território sérvio (numa altura em que representava a seleção da Jugoslávia, da qual seria afastado).

2. Um incidente na final do Mundial de basquetebol, 1990

Defrontavam-se URSS e Jugoslávia, na final do Mundial de basquetebol, a decorrer na Argentina. Os jugoslavos venceram por 90-75, após quatro períodos intensos e emocionantes. No final, um adepto decidiu invadir a quadra com a bandeira croata e uma das referências da equipa, Vlade Divac (jogador com uma carreira imponente na NBA), decidiu agarrar na bandeira e atirá-la para fora dos festejos jugoslavos. Justificou o ato como sendo uma forma de garantir a união entre elementos da seleção da Jugoslávia no meio da festa. Nos dias subsequentes, as críticas e as demonstrações de ódio por parte dos croatas foram bastante evidentes.

3. Os escaldantes Estrela Vermelha-Hajduk Split de 1991

2 de Maio de 1991. Um tiroteio entre nacionalistas croatas e milícias sérvias deu início à Guerra Civil dos Balcãs, na localidade croata de Borovo. Seis dias mais tarde, era dia de final da Taça jugoslava e defrontavam-se duas referências do futebol balcânico à época: Estrela Vermelha e Hajduk Split. O jogo foi em Belgrado e o ambiente foi de tensão permanente. O capitão dos croatas, Igor Stimac, terá dito o seguinte ao rival Sinisa Mihaijlovic: «Espero que os nossos rapazes tenham matado toda a tua família em Borovo». Durante o jogo, como seria de calcular, Mihaijlovic tentou agredir múltiplas vezes o seu adversário. Ambos acabaram expulsos, com toda a naturalidade. A vitória final sorriu aos croatas, golo de Boksic. Menos de um mês depois, no dia 5 de Junho, ambas as equipas voltaram a defrontar-se, sendo que o Estrela Vermelha tinha já o estatuto de campeão europeu, adquirido depois de uma final épica frente ao Marselha, em Bari (vitória na marca das grandes penalidades). Nesse encontro, Mihaijlovic voltaria a ser expulso, depois de mais uma épica sessão de pontapés e agressões. A rivalidade Stimac-Mihaijlovic ficaria para a História, sendo que ambos já se defrontaram entretanto enquanto selecionadores dos seus países, no apuramento para o Mundial 2014.

4. O primeiro confronto Jugoslávia-Croácia no pós-Guerra, 1998

Depois de anos de conflito (com a consequente afetação para o próprio futebol), o sorteio do apuramento para o Euro 2000 juntou no mesmo grupo jugoslavos e croatas. A Jugoslávia, que integrava à época os territórios de Sérvia e Montenegro, começou por receber os rivais croatas, em Belgrado, em Agosto de 1998. O jogo terminou com um nulo, sendo que na segunda parte falhou a luz no estádio. «Nós protegemos os jogadores da Croácia», garantiu Drulovic ao Maisfutebol, na semana passada, quando instado a abordar o Sérvia-Albânia. Em Zagreb, na segunda volta, em Outubro de 1999, o encontro terminou empatado a duas bolas e os jugoslavos garantiram o apuramento para o Europeu da Bélgica e Holanda. «Jogámos quase uma hora com um homem a menos, aguentámos o empate e assim que o árbitro apitou para o fim o estádio paralisou. Nós festejávamos no relvado, só se ouvia a nossa equipa, parecia um funeral. Nunca me vou esquecer daquele silêncio, não voltei a ter uma sensação dessas num jogo de futebol», recordou também Drulovic a propósito desse segundo encontro.

5. Partizan-Dinamo Zagreb, a guerra num particular, 2003

Quem diria que um jogo particular entre Partizan e Dinamo Zagreb a ser disputado na Suíça iria terminar numa batalha campal? Primeiro, começou pelos jogadores mas foi quando os «hooligans» de ambas as equipas entraram em ação que a coisa descambou. As cenas foram absolutamente lamentáveis e trouxeram à luz do dia fantasmas de um passado perturbante para ambos os países…

6. Confrontos entre croatas e sérvios no Open da Austrália, 2006

Novo «quem diria?», neste caso aplicado ao ténis. Um desporto, por norma, extremamente correto e sem casos de violência conheceu um dos seus momentos mais negros no Open australiano de 2006. Num país onde existem duas grandes comunidades emigrantes de croatas e sérvios e havendo tenistas de grande protagonismo em ambos os países, alguns grupos de adeptos fizeram das imediações dos courts em Melbourne um autêntico campo de batalha. O caso foi visto como um escândalo na altura, sobretudo pelo facto de o ténis ser considerado um desporto de elite.

7. A noite de Ivan, O Terrível, Génova, 2010

12 de Outubro, noite terrível no Estádio Luigi Ferraris, em Génova. Itália e Sérvia preparavam para se defrontar num encontro de apuramento para o Euro 2012, quando os problemas nas bancadas começaram. Não entre adeptos das duas seleções mas sim entre os adeptos forasteiros e a polícia italiana. Um homem emergiu no meio da confusão: Ivan Bogdanov, conhecido «hooligan» sérvio, decidiu cortar as redes de proteção da bancada e depois queimaria uma bandeira albanesa, numa altura em que se discutia a legitimidade da independência kosovar. Os albaneses afirmavam que o pequeno país deveria ser independente, os sérvios mostravam-se contra. Foi um autêntico «one man show», com a polícia a ter imensas dificuldades para lidar com a violência sérvia. O caso teve na altura imensas repercussões ao nível mediático e acabou inclusive com a prisão de Ivan Bogdanov.