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O destino peculiar motivou a curiosidade, saciada pelo contacto do homem que recebeu André Villas-Boas num território britânico perdido no mar das Caraíbas. Na quinta-feira, dois meses após a primeira abordagem, Kenrick Grant respondeu ao desafio e recuperou a história de 2000.

«Eu era presidente da Associação de Futebol das Ilhas Virgens Britânicas, nessa altura, e estava à procura de um treinador jovem, com qualificação. O André enviou-nos o seu currículo, vinha de um grande clube como o F.C. Porto e era amigo de Bobby Robson. Ficámos convencidos», conta.

Villas-Boas queimou várias etapas na sua formação como treinador. Tinha apenas 17 anos quando tirou o curso no Reino Unido, por intermédio de Sir Robson, e voltou a Portugal para colaborar com as camadas jovens do F.C. Porto.

«Ao início, estava sempre na praia»

André queria ser treinador antes do prazo, mas era um miúdo. Tanto que, ao chegar às remotas Ilhas Virgens Britânicas, deslumbrou-se. Tinha 22 anos.

«Ao início, estava sempre na praia! Passava por ele e via-o sempre de calções. Tive de falar com ele. Parecia que estava de férias. Mas quando começou a trabalhar, surpreendeu-me logo», admite Kenrick Grant.

Entregaram-lhe a supervisão das camadas jovens. Era pouco para tamanha ambição. «Logo ao início, fez um plano completo para todas as selecções, um manual com planos de jogo e de treino, cheio de informação. Mexia muito bem nos computadores e era soberbo na observação. Vinha para as selecções jovens, mas ele queria trabalhar na principal».

«Passou então a estar nos treinos da selecção principal, a colaborar com o seleccionador. Eu sabia a idade que ele tinha, mas não me arrependi. Deixou trabalho feito, meteu os seniores a treinar os miúdos e muitos desses jovens chegaram depois à selecção principal», congratula-se o antigo responsável pelo futebol nas Ilhas Virgens Britânicas.

«Não tinha paciência para jogadores sem qualidade»

O actual treinador do F.C. Porto acumulava experiência num destino exótico. Tinha 22 anos e estava com pressa. Queria chegar ao topo quanto antes: «Foi o único problema que tive com ele. Percebi que estava aqui pelo currículo, que não iria ficar muito tempo. Queria ser seleccionador principal, mas nessa altura tínhamos um. Então, acabámos por dizer adeus.»

Villas-Boas regressou à Invicta e ao seu clube de sempre, de novo para as camadas jovens. José Mourinho chega mais tarde e reencontra o jovem. André passa a encarregar-se da observação de adversários. Fá-lo com mestria, cresce na sombra, do Porto a Londres, de Londres a Milão.

Dez anos após a primeira aventura, corta de novo a direito. Quer afirmar-se por conta própria e chega à Académica. Convence o F.C. Porto e entra no Dragão pela porta grande. Neste sábado, vai a jogo, a doer.

«Estou ansioso para ver como se safa. Fiquei surpreendido, ele tinha a teoria toda, falta-me perceber se já tem a prática. E outra coisa. Ele não tinha paciência para jogadores sem qualidade, como havia na selecção principal. Por isso é que preferi deixá-lo com os jovens. Talvez tenha mudado entretanto», remata Kenrick Grant, em conversa com o Maisfutebol.