Efeméride é uma rubrica que pretende fazer uma viagem no tempo por episódios marcantes ou curiosos da história do desporto, tenham acontecido há muito ou pouco tempo. Para acompanhar com regularidade, no Maisfutebol.

 

22 de janeiro de 1889, há 127 anos. Nos terrenos onde agora está instalada a Praça de Touros do Campo Pequeno, duas equipas defrontam-se para um espetáculo que Portugal nunca tinha visto. A alta sociedade lisboeta compareceu em peso para ver como era aquele jogo com 22 homens e uma bola. Curiosidade semelhante à que os levou depois a passar pelo Jardim Zoológico para ver «a mulher peluda». Foi o primeiro jogo de futebol público em Portugal.

 

O bichinho que veio de Inglaterra          

 

Foi de Inglaterra, que já estava acometida pela febre do futebol, que chegaram a primeira bola e os primeiros toques em Portugal. O primeiro relato de uma espécie de encontro em terras lusas data de 1875. Testemunhos falam de uma partida realizada na Ilha da Madeira, na freguesia da Camacha, no lugar da Achada. O responsável foi o inglês Harry Hinton,  jovem residente na Madeira que estudava em Londres, que trouxe uma bola e esteve a jogar com os amigos, se bem que segundo os relatos não tenha havido qualquer preocupação com as regras do jogo.

 

Treze anos mais tarde há o primeiro registo do jogo da bola em Portugal Continental. Desta vez os culpados foram os bisnetos do fundador da Vista Alegre, Guilherme, Eduardo e Frederico Pinto Basto.

 

Estudantes em Inglaterra, no S. George College, nos finais do século XIX, os irmãos trouxeram para Portugal uma bola e desafiaram os amigos a jogar. Está envolta em alguma polémica a questão sobre quando e qual dos irmãos terá trazido o esférico. Guilherme, numa entrevista, explicou a questão: «Foram os meus irmãos, Eduardo e Frederico, quando regressaram do colégio em Inglaterra, em 1886». Mas foi ele, Guilherme, quem, em outubro de 1888, organizou o primeiro «ensaio», que seria na gíria da época a forma como se denominava um treino.

 

Foi num domingo à tarde, na Parada de Cascais, e os jogadores eram bastante ilustres ou não fosse Cascais o ponto de encontro da alta sociedade, onde até a família real ia a banhos e jogava ténis. Desta vez o jogo foi o futebol.

 

Além dos irmãos Pinto Basto, o conselheiro Aires de Ornelas (que, após heróicas campanhas, em África, como oficial do Exército, foi ministro em vários governos da monarquia), Francisco Alte, Hugo O'Neil, o Visconde de Asseca, o Marquês de Borba, o Conde de S. Lourenço e Francisco Figueira participaram no jogo. Mas antes foi preciso prepararem o campo de jogo e os atletas estiveram boa parte da manhã a retirar pedras do terreno.

 

Entre os «rebolões» no campo e «a mulher peluda»

 

Bem sucedido o ensaio, Guilherme Pinto Basto resolve organizar o primeiro jogo. Uma coisa mais a sério. Chegamos então a 22 de janeiro de 1889 e àquela que foi, além da primeira partida pública, a primeira disputada entre portugueses e estrangeiros.

 

Lisboa tinha nessa altura uma significativa vida cultural e uma burguesia que vivia mais desafogada devido ao aumento da atividade económica nas colónias e a uma certa acalmia política. «E muitas pessoas ali foram, despertadas pela curiosidade de saber como era aquele jogo com vinte e dois homens aos pontapés a uma bola», escreve no dia seguinte o «Jornal do Comércio».

 

A equipa portuguesa foi constituída por uma seleção dos melhores jogadores da primeira exibição pública. Foram selecionados João Saldanha Pinto Basto, João Bregaro, Eduardo Romero, Eduardo Ferreira Pinto Basto, Afonso Vilar, D. Simão de Sousa Coutinho (Borba), Eduardo Pinto Coelho, Frederico Pinto Basto, Fernando Pinto Basto, Augusto Moller e Henrique Vilar. Do lado dos estrangeiros faziam parte da equipa empregados do Cabo Submarino, da Casa Graham e de outras casas inglesas instaladas em Lisboa.

 

Ainda não havia posições fixas, exceptuando a do guarda-redes, nem sistemas tácticos, e em termos de equipamentos, valia tudo, até usar sapatos para jogar.

 

A formação portuguesa venceu por 2-1, mas no dia seguinte pouco se falava no resultado, como se pode ver pela crónica do «Jornal do Comércio», a primeira crónica sobre o jogo em Portugal, com o título: «O “Match” no Campo Pequeno – A mulher peluda no Jardim Zoológico», acompanhada por uma ilustração de Julião Machado.

«Uma quantidade enorme de pessoas foi hoje ao Campo Pequeno assistir ao desafio, entre ingleses e portugueses, de futebol. Grande número de carruagens com elegantes senhoras, entre as quais se destacavam mademoiselle Ida Blanc, governando galhardamente, ao lado de sua mãe, uma soberba parelha de cavalos pretos. O resultado do jogo foi muito lisonjeiro para os nossos compatriotas que conseguiram ganhar. Não faltaram os trambolhões e os rebolões do próprio jogo, mostrando todos os fortes mancebos, que nele tomaram parte, quão exímios são no “manejo” do pontapé, como disse uma elegante que, por casualidade, ficou ao pé de nós. Quase toda a gente, findo o futebol, foi passear ao Jardim Zoológico, onde se exibia a persa Mirra, a mulher peluda».

O gosto do futebol foi-se espalhando progressivamente, sobretudo por entre as elites, e rapidamente até o rei D. Carlos se tornou adepto.