Efeméride é uma rubrica que pretende fazer uma viagem no tempo por episódios marcantes ou curiosos da história do desporto, tenham acontecido há muito ou pouco tempo. Para acompanhar com regularidade, no Maisfutebol. 

Estudiantes e AC Milan disputavam a 10.ª edição da Taça Intercontinental. Ambas as equipas participavam pela segunda vez na competição. A formação argentina tinha sido campeã no ano anterior, ao derrotar o Manchester United, e procurava repetir a vitória. Para os italianos a participação anterior sabia a derrota, frente ao Santos de Pelé.

A edição de 1969 trazia uma novidade. Até então eram disputados dois jogos e apenas o saldo de vitórias contava, ou seja, se cada uma das equipas vencesse uma das mãos, era necessário um terceiro jogo para desempatar. Na edição de 69 era a primeira vez que a diferença de golos era fator de desempate.

O Estádio San Siro foi o palco da primeira mão. Perante 60 mil espectadores, os italianos venceram por 3-0, dando um passo gigante na eliminatória. Logo aos oito minutos, Angelo Sormani deu a vantagem aos rossoneri. Néstor Combin aumentou aos 45, mesmo em cima do intervalo, e Sormani fez o 3-0 final aos 71 minutos.

A segunda mão teria lugar em Buenos Aires, na Bombonera, perante 45 mil adeptos, e prometia ânimos exaltados. Uma das razões era Néstor Combin. O jogador do Milan, nascido em Las Rosas, Argentina, emigrou para França, onde começou a jogar ainda nas camadas jovens, e naturalizou-se francês. No país natal, onde a ditadura militar estava no poder, Combin era visto como um traidor. «Não bastava ter-se naturalizado, como, ainda por cima,  na primeira mão marcou um golo ao Estudiantes, equipa do país onde nasceu. Era preciso fazê-lo pagar», relatou o companheiro de equipa Giovanni Lodetti.

Mas não era apenas o caso de Combin a fazer antever problemas para a segunda mão. Na época anterior, o Manchester United acusou os Estudiantes de serem «uns animais» pela forma «violenta» como jogaram e pelo comportamento dos adeptos nas bancadas. Com uma desvantagem de três golos, a segunda mão frente ao Milan prometia, por isso, ser dura.

Os jogadores rossoneri não tardaram a confirmar o clima de hostilidade que antecipavam. No aquecimento, os adversários chutavam bolas contra os jogadores do Milan, e o pior ainda estava para vir. O túnel de acesso ao relvado não era totalmente coberto na Bombonera. Antes sequer de terem entrado em campo, e apesar de terem levado uma bandeira argentina como sinal de cordialidade, os italianos foram brindados com banhos de café a ferver. A polícia nada fez para acalmar a situação e, com o apito inicial, as coisas só pioraram.

Aos 17 minutos, Pierino Prati é o primeiro a sofrer na pele a agressividade dos adversários. Após um lance com Aguirre Suárez, sofre uma contusão cerebral e cai inconsciente por alguns instantes. Enquanto recupera, recebe um pontapé nas costas do guarda-redes Alberto Poletti. Apesar da lesão, ainda jogou outros 20 minutos antes de sentir que não conseguia mais e ter sido substituído.

O guardião argentino viria depois a dar um murro em Gianni Rivera, a estrela dos rossoneri, um pontapé no rosto de Combin e agrediu Prati. Mas não foi o único protagonista de cenas de violência.

O jogo, propriamente dito, parecia ser jogado no intervalo das agressões. Ainda assim, houve golos. Gianni Rivera, aos 30 minutos, fez o 1-0 para o Milan, levando a eliminatória para 4-0. Marcos Conigliaro e Aguirre Suárez, com uma diferença de menos de dois minutos, fizeram o 2-1 no encontro para o Estudiantes, mas ainda precisavam de mais golos para poderem chegar à taça.

Na segunda parte, a violência só aumentou. «Foi um massacre. Começaram a pontapear a torto e a direito. Queriam ganhar à força, a bater em toda a gente. Até deu medo. A bola estava de um lado do campo, e eles davam-nos pontapés do outro, e o árbitro não fazia nada. Sempre soubemos que era muito difícil jogar lá por causa da famosa garra argentina, mas eles transformaram garra em ameaça», recordou o rossoneri Angelo Sormani ao «Globo».

A maior vítima do massacre seria Combin. Aguirre Suárez deu-lhe uma joelhada, partindo-lhe o nariz e o osso malar. O franco-argentino ficou banhado em sangue e perdeu a consciência durante alguns momentos. Ainda assim, enquanto estava a ser assistido pelo médico, o árbitro pediu-lhe para regressar depressa ao relvado, para recomeçar o jogo. Mas tal não aconteceu. Combin não conseguiu recuperar e foi retirado em maca.

 

«Sabia desde o início que não ia ser fácil, mas não esperei que chegasse a isto. Insultaram-me desde o início do jogo e o Poletti gritava: «Porco traidor, vamos partir-te as pernas». Na primeira parte só conseguiram dar-me dois pontapés e um golpe nas costas. Na segunda parte, com a bola longe, o Aguirre Suárez fez-me perder o equilíbrio e deu-me uma joelhada na cara. Não entendia o que eles estavam a fazer. Aquilo nem era futebol, nem violência, era delinquência», contou Combin ao Corriere della Sera.

Mas, o mais insólito, para Combin, ainda estava para vir. Deitado na maca, foi preso pela polícia argentina. O motivo: ter fugido ao serviço militar obrigatório, que se cumpria aos 20 anos, altura em que o jogador já vivia em França e se tinha naturalizado francês. Depois de uma noite na prisão, e de ter garantido que tinha feito o serviço militar em França, foi finalmente libertado e autorizado a sair do país. 

Em campo, Aguirre Suárez e Eduardo Manera, que agrediu Rivera, foram expulsos – e aplaudidos pelos adeptos ao deixarem o relvado. O tempo foi passando e o jogo lá chegou ao fim. O 2-1 na segunda mão não foi suficiente para os argentinos conseguirem a reviravolta na eliminatória e a taça tinha mesmo a Itália como destino. 

 

Mas não houve festa na Bombonera porque o apito final trouxe ainda mais confusão. «Acabou o jogo e fomos todos para dentro do balneário. Não houve cerimónia de entrega da taça e até a entortaram. Parecia que tinham batido com ela no chão antes de a entregarem», contou Angelo Sormani.

As cenas de violência não agradaram à ditadura militar, que usava as vitórias no futebol para distrair as atenções da situação política. Poletti, Manera e Aguirre Suárez foram detidos e passaram um mês na prisão.

Além disso, foram castigados pela Associação de Futebol Argentino (AFA). Aguirre Suárez, suspenso por 30 jogos e por cinco anos de torneios internacionais; Manera, castigado com 20 partidas e três anos sem competir fora do país. Poletti recebeu o castigo mais severo ao ser banido do futebol para sempre, punição perdoada sete meses depois, após a queda da ditadura militar no país.

Em 2005, Alberto Poletti falou ao jornal «As» sobre esse dia. «O futebol da época era violento. Antes do jogo foi ao balneário o monsenhor das Forças Armadas da Argentina, que nos disse: «Ganhar ou morrer». Nós éramos jovens...», recordou.

«Paguei pelo que fiz. 30 dias atrás das grades e sete meses sem jogar. Ainda me suspenderam para sempre, só que depois fui perdoado. O monsenhor das Forças Armadas nunca veio a público falar do que nos disse. Queriam que ganhássemos porque havia greves e revoltas no país. Queriam distrair as pessoas», explicou.

As cenas e as histórias da violência correram mundo e vários clubes começaram a recusar jogar a competição na América do Sul. Só em 1980, com o patrocínio da Toyota e a decisão de jogar a Taça Intercontinental num país neutro, a prova deixou de ter uma conotação negativa.