Um FC Porto campeão da Europa? Nunca antes de 2018. A eliminação às mãos da Juventus teve lógica, até alguma justiça, e deixou os portistas de água na boca para o rápido regresso às provas da UEFA, confidentes leais e fiéis dos dragões.

Viena-1987 celebra 30 anos já no próximo mês de maio. Gelsenkirchen-2004 está mais fresca na memória coletiva. A final do 3-0 ao Mónaco teve José Mourinho ao leme, Nuno Espírito Santo no banco de suplentes e um menino de 19 golos a inaugurar o marcador: Carlos Alberto, o Feijão.

Na ressaca da derrota em Turim, o Maisfutebol localiza o talento do genial brasileiro no Atlético Paranaense. Aos 32 anos, Carlos Alberto luta pela glória na Libertadores, sem esquecer a mais brilhante página da carreira.

Uma página onde se juntam estes nomes todos. Mourinho, Nuno, Carlos Alberto, Deco, Alenitchev, Derlei, Maniche…

Uma longa entrevista, carregada de saudade. O que é feito do Feijão, um dos heróis de 2004, campeão da Europa e do Mundo, vencedor da liga portuguesa e da Supertaça?

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Carlos Alberto festeja o golo marcado na final de Gelsenkirchen

Maisfutebol – Saiu do Porto há 12 anos, ainda um menino. Como está hoje a sua carreira profissional?

Carlos Alberto – A minha carreira está num momento feliz. Estou num clube profissional, bem estruturado e a participar em competições importantes. A diferença é que o menino do FC Porto cresceu, tem muitas responsabilidades e dois filhos. Sinto muito a falta do Porto, das pessoas e da cidade. Os adeptos sempre foram carinhosos comigo. Sempre que posso acompanho os jogos da equipa. Muita coisa se passou comigo em 12 anos, nem sempre coisas boas, mas o amor pelo FC Porto ficou.

MF – Tem visto os últimos jogos do FC Porto?

CA – O último que vi foi contra a Juventus. Estávamos no Paraguai, para a Libertadores, e juntei a equipa toda à volta da televisão. Quando somos bem tratados num lugar, esse lugar fica para sempre no coração. É o caso do FC Porto comigo. Aliás, aqui no Atlético há dois portistas ferrenhos, eu e o Lucho Gonzalez (risos). É impensável o Porto não ser campeão três anos seguidos. Este ano tem de ser.

MF – E ambos conhecem bem o Nuno Espírito Santo. Foi vosso colega de equipa.

CA – O Nuno é um amigaço (risos). Ajudou-me muito. Nos momentos em que eu andava perdido, ele abraçava-me e dizia ‘Feijão, calma Feijão’. Fico muito feliz ao ver que ele hoje é um bom treinador e que está à frente do projeto do FC Porto. Está meio gordinho, não é? (risos). Quero deixar um abraço para ele, é um tipo sensacional.

MF – Em 2004 o Nuno já comentava consigo que queria vir a ser treinador?

CA – Ele era suplente do Vítor Baía. Já era muito observador, tinha sempre uma leitura interessante do jogo. Como o Nuno não jogava muitas vezes, acho que aproveitou para aprimorar essa área de análise. Era um profissional diferente, ajudava-me muito.

MF – Lembra-se de algum episódio em concreto vivido com o Nuno?

CA – Claro, vários. Por exemplo, quando fiz o meu primeiro golo pelo FC Porto, na taça e ao Vilafranquense [21 de janeiro de 2004, Rui Vitória treinador dos ribatejanos], o Nuno estava na baliza e foi dos primeiros a abraçar-me. Era um rapaz muito inteligente e um dos mais divertidos no balneário, apesar de no exterior não mostrar isso.

VÍDEO: o abraço de Nuno a Carlos Alberto (15 segundos): 

MF – Como começou a sua história no Porto? Tinha 19 anos.

CA – E tantos sonhos (risos). Um menino cheio de vontade e muitos defeitos. É importante frisar. Tinha desejo de ganhar e nunca perdi isso. Trabalhei com grandes jogadores. Deco, Costinha, Maniche, Benni [McCarthy]… o meu sucesso em 2004 tem a ver com o grupo, muito homogéneo, muito amigo. Era uma grande família.

MF – Campeão da Europa e do Mundo em 2004. É um feito extraordinário.

CA – Parece impossível, não é? Mas isso não existe. Nem impossível, nem perfeito. No sorteio dos quartos de final da Champions, quando saiu o Lyon, o José Mourinho juntou-nos e disse isto: ‘não vai haver outro momento como este, só podemos ganhar’. A competição desenrolou-se e nós agarrámos a História. Foi um momento único, de grande alegria, onde tudo o que era bonito se juntou.

MF – Qual era o ingrediente mágico dessa equipa campeã da Europa?

CA – A nossa equipa era muito bem treinada e muito sincronizada. O Mourinho fazia treinos só com jogadores e barreiras. Treinava a temporização, era tudo perfeito. Os jogadores andavam em bloco e faziam movimentos estudados. Isso definia o nosso campo organizativo e depois, no processo ofensivo, tínhamos craques. Era esse o nosso equilíbrio e foi isso que fez desabrochar os bons resultados e os grandes jogadores. O Maniche fez uma época espetacular. Nos momentos decisivos, em que tínhamos que decidir, havia sempre um jogador inspirado.

MF – E esse jogador aparecia sempre?

CA – Você pode ter um grande grupo, mas precisa desse tipo de atletas corajoso e talentoso. Em alguns momentos essa qualidade técnica protege os outros atletas.

MF – Um menino de 19 anos, campeão da Europa, o que sente nesse momento?

CA – Euforia total, um absurdo. Eu tinha a ideia de que era um grande feito, mas só quando chegámos ao Porto, no regresso, é que eu tive a verdadeira noção do que tínhamos feito. Aí e quando fui para o Brasil de férias nesse ano de 2004. Na minha cabeça, anteriormente, era só mais uma final e fui para ela tranquilinho. E isso também ajuda. Fui para o relvado como uma criança que ia brincar, um moleque saído de uma favela do Rio de Janeiro, a rir e a mascar chiclete. No final… não me senti no topo do mundo. Senti que tinha de curtir, mas com a responsabilidade de não usar essa conquista para sempre, para não entrar na minha zona de conforto.

MF – Gelsenkirchen foi mais do que a final. Como foram os dias anteriores?

CA – Fiquei no quarto com o Deco, meu parceiro. Ele andava chateado porque tinha recebido convites de gigantes europeus, meses antes, e o Porto não o tinha deixado sair. Andava amuado (risos). Nesse dia de véspera, o Deco virou-se para mim e disse ‘fica tranquilo, decidi que vou jogar e brilhar’. Ele fez uma época notável, foi decisivo por exemplo contra o Corunha nas meias-finais. Conversávamos muito. Eu garanti ao Deco que ia marcar um golo. Assim foi. Depois foi só festa (risos).

MF – O Carlos tinha 19 anos. O que se seguiu não defraudou os seus sonhos?

CA – Fiz escolhas certas, outras erradas, mas a verdade é que aos 32 anos estou num clube que até me pode permitir mais uma chegada ao Mundial de Clubes. Agora pelas Américas.

MF – Nunca teve convites para voltar ao FC Porto?

CA – Não, só mesmo para a festa de despedida do Deco (risos). Eu confirmei a presença, queria estar com todos, mas na altura estava no Botafogo e surgiu um compromisso de última hora. Lesionei-me e não fui. Queria muito ter ido para estar com a malta toda e dizer-lhes que estão todos gordinhos e de cabelos brancos. E eu continuo a ser o mesmo menino cheio de saúde (risos). Tenho muita gratidão pelo FC Porto e as suas gentes.

FICHA INDIVIDUAL:

. Carlos Alberto Gomes de Jesus

. Clubes: Fluminense, FC Porto, Corinthians, Werder Bremen, São Paulo, Botafogo, Vasco da Gama, Grémio, Bahia, Goiás, Botafogo, Figueirense e Atlético Paranaense

. 1 internacionalização pela seleção do Brasil

Carlos Alberto na final da Taça Intercontinental