Foi a Décima, sim senhor. Mas olhem para o resultado, tem lá um ap de após prolongamento, e fiquem sabendo que só não foi La Primera
Casillas a meio caminho

A mancha vermelha e branca gigante na Luz sabia-o. Aquele corte de Varane, pela linha de fundo, iria dar-lhes um canto. E todo o bom colchonero sabe o quanto gosta de cantos, livres, bolas paradas, em que podem aplicar sempre mais uns pozinhos de agressividade e chegar primeiro à bola. O grito de «Atleti, Atleti» surgiu, Varane não afastou totalmente o perigo, que chegou a Godín. Casillas, na baliza onde Ricardo falhara duas vezes, uma frente a Luisão e outra perante Charisteas na final do Euro de há dez anos, ficou a meio caminho. E tal como Vítor Baía ainda correu naquele remate de Petit que não valeria, o guarda-redes ainda voou em desespero para trás. Tarde de mais.

O Atlético, consistente, de blocos muitos juntos, a conseguir colocar bons focos de pressão sobre Modric e Di María (e também Ronaldo e Bale), mostrava-se muito forte pelo meio do terreno, pese algumas desatenções nos primeiros minutos a Benzema, que conseguia receber em zona perigosa perto da grande área. Depois, houve dois momentos em que o Real Madrid podia ter chegado primeiro ao golo: aos 27 minutos, Di María encontrou Benzema para a combinação e disparou para a área contrária, obrigando Raúl García a uma falta amarelada (houve um instante em que o argentino poderia ter soltado a bola mais cedo, e isolado um companheiro); aos 32, Tiago errou, Bale levou a bola até à frente de Courtois, mas assustou-se no limite com Miranda e atirou ao lado.

O golo, marcado como se disse acima por Godín, aos 36 minutos, ainda sossegava mais a equipa de Cholo Simeone. Era nos momentos atacantes que estivera o seu maior handicap até aí. Claro que ter um Sergio Ramos a acumular disparates poderia ser sempre um filão a explorar, mas essas tendências suicidas do central espanhol acabaram por não ter influência maior do que alguns calafrios em companheiros e adeptos. 
 

Ah, é verdade, o Atleti já estava outra vez sem os seus dois melhores jogadores. Arda Turan ficara KO bem antes do encontro, Diego Costa aguentou dez minutos. Afinal, os sprints do dia anterior, no treino de adaptação, tinham significado tanto como o coxear de Ronaldo à entrada do hotel. Muito pouco.

Surpresa Khedira, o esforço de Ronaldo

Dois jogos incompletos como titular na liga espanhola depois de uma rotura de cruzado bastaram para que Ancelotti entregasse a posição 6 a Khedira. Não foi pelo alemão, que sairia aos 60 minutos para dar lugar ao mais ofensivo Isco – na mesma altura em que o italiano apostou em Marcelo para o lugar de Fábio Coentrão –, que as coisas falharam em termos exibicionais. Khedira não mostrou receio, foi ao choque, ganhou bolas pelo ar e sofreu inúmeras faltas.

Cristiano Ronaldo não teve um jogo fácil. O Atlético apertou o cerco cada vez que a bola lhe chegou perto, e depois de um livre à figura de Courtois aos 28 minutos, apenas conseguiu soltar-se um pouco mais no segundo tempo. Depois de Di María ter arrancado um amarelo a Miranda num slalom aos 53 minutos, Ronaldo voltou a ter novo livre à sua medida. Desta vez, o remate obrigou o belga a defesa apertada pela linha final. No canto, ameaçou outra vez. Novo canto, e o português atirou ao lado. Dizia presente, estava ali para lutar pela Décima até ao apito final.

30 minutos para tentar tudo

A meia-hora do fim, o Atlético, mais cansado, deixou de sair tantas vezes do seu meio-campo. Do banco do Real saltavam Marcelo e Isco para os lugares de Fábio Coentrão e Khedira (ainda iria entrar Morata por Benzema mais tarde). Esperavam-se minutos de sofrimento para os valentes homens de Simeone, como sempre muito bem comandados por Tiago (e com Gabi, sobretudo, em exibição sobre-humana).

Os merengues iriam somar algumas oportunidades. Ronaldo não chegou ao cruzamento de Ramos aos 62, Bale atirou ao lado a passe de Cristiano aos 73 e, aos 75, foi o português a atirar por cima, num sôfrego pontapé de moinho. E, um minuto depois, seria o galês a desperdiçar a mais flagrante do segundo tempo. Isolou-se pela direita, teve só Courtois pela frente e atirou às malhas laterais. Esse falhanço marcou-o mais do que os outros.

E o tudo chegou ao terceiro minuto de compensação. Pontapé de canto da direita de Modric e Sergio Ramos a subir ao primeiro andar, naquilo que é talvez o seu maior trunfo, a cabecear para as redes. O central, apesar de tanta palermice no primeiro tempo, bem merecia depois o abraço de Casillas, cujo erro no golo de Godín o poderia ter marcado para sempre como réu no falhanço da conquista da Décima. Depois de tudo o que já tinha passado nas últimas duas épocas, seria um fardo demasiado pesado para suportar.

Bale, de derrotado a vencedor

O Atlético acabara os 90 minutos por baixo, e o golo nos descontos era um teste valente à tese de que era a melhor equipa da Europa este ano. O cansaço era evidente. Raul García tinha saído aos 64 minutos para dar lugar a Sosa, mas Simeone fôra também, para cúmulo, obrigado a tirar de campo o seu lateral-esquerdo Filipe Luís, aos 82, por lesão (entrou Alderweireld). Nem gerir um pouco o esforço tinha sido permitido a Cholo, que, recorde-se, perdera Diego Costa também logo aos dez minutos.

Do outro lado, um Gareth Bale completamente arrasado psicologicamente motivava, por ocasião de uma entrada em campo da equipa médica colchonera, uma reunião a meio-campo. O galês era confortado pelos colegas num momento importante, quando ameaçava perder-se por completo em campo.

Com o Atlético de linhas mais recuadas, o Real Madrid não teve muito espaço e pouco criou no primeiro tempo. Simeone também aproveitava para ajudar a equipa a descansar, e colocava bolas em campo para perder alguns segundos. Tudo valia no jogo mais importante da temporada.

Chegava um golo, vieram três

Aos 110 minutos, Di María desenhou uma vitória feita de ésses. Juanfran estava a coxear por culpa de um corte minutos antes. O argentino carregou, passou por dois, rematou, Courtois defendeu, mas estava Bale ao segundo poste para fazer a recarga. O jogo voltava a dar uma oportunidade ao galês, que desta vez não desperdiçava.

A três minutos do fim, a bola ainda rodava no ataque do Real e cinco jogadores do Atlético estavam do outro lado, em posição de fora de jogo, esgotados. A bola chegou a Marcelo, que foi para a área e fez o terceiro. Tinha acabado!

O golo de Ronaldo, de penálti, a castigar uma falta cometida sobre si, surgiria depois como ponto final no encontro. O português tirava a camisola e soltava os festejos, a «Décima» tinha muito de si. Bola de Ouro, Bota de Ouro e Liga dos Campeões. Que época incrível!