Não foi preciso mostrar técnica, nem velocidade, nem colocação no remate. Foi estar no sítio certo, no momento exato. A estreia de Mohcine Hassan a marcar na Liga portuguesa, no jogo entre o V. Setúbal e a Académica, fez os mais saudosistas lembrar o seu pai, Hassan Nader, que jogou no Benfica e marcou uma era no Farense. Foi um goleador nato, melhor marcador da Liga em 1994/95. O filho dá agora os primeiros passos. E já muita gente quer perceber se herdou o instinto matador do pai.

O minuto 38 do jogo que abriu a 19ª jornada da Liga vai ficar na memória do jovem Hassan que, aos 21 anos, e depois de duas temporadas emprestado pelos sadinos a Casa Pia e Pinhalnovense, conquistou o seu espaço. Já tinha cinco jogos na temporada, sempre como suplente utilizado, adicionou-lhe a primeira titularidade e o primeiro golo. Um golo que foi festejado no Bonfim, em Setúbal e também em Marrocos.

«Já sabem como é. Ver um filho marcar um golo…bem...quase não dá para dizer nada. Não dá para explicar a sensação», diz Hassan Nader, o pai, em conversa com o Maisfutebol.

Pais e filhos na mesma equipa? Uma reportagem na MFTotal 264

Se a conversa gira em torno de golos, Hassan é um palestrante de luxo. Foram 21 na melhor temporada em Portugal, quando o Farense de Paco Fortes terminou em lugar europeu e o marroquino ganhou um bilhete para o Benfica. Mas quando se fala do filho é diferente. As palavras saem mais a custo porque o sentimento é «inexplicável», garante.

Na sexta-feira Hassan sentou-se em frente ao computador a assistir ao jogo, como faz sempre.

«Quando o vi a titular fiquei muito contente, mas também fiquei logo nervoso. Eu sofro muito por ele. Estava à espera deste momento há muito tempo. É importante para ele, dá-lhe moral e confiança. Para mim, olhe, quando ele marcou até chorei. Acho que isto diz tudo», resume.


Hassan ao serviço da seleção de Marrocos

Diz muito, de facto. Hassan não esconde o orgulho por ver os primeiros passos do filho numa Liga que tanto significa para si. As recordações do miúdo que nasceu apaixonado por futebol saem em catadupa.

«Ele nasceu com uma bola, costumo dizer. Em pequeno qualquer coisa que ele visse que fosse redonda ia logo pontapear. Dizia: bola, bola, bola. Até lâmpadas, se fossem redondas, ele achava que eram bolas», atira, entre risos.

E acrescenta uma história curiosa: «Quando eu fui para o Benfica ele tinha um ano ou dois. Naquela altura levava-o muitas vezes a passear para junto do Estádio da Luz e sempre que ele passava na estátua do Eusébio subia para lá para dar pontapés na bola que lá estava…»

Antes de Hassan, já sete tinham marcado: o caso de Taira

Mohcine Hassan não foi o primeiro filho de um antigo jogador a marcar na Liga. De todo. O Maisfutebol contou até oito. Hassan foi, assim, o nono goleador de segunda geração, por assim dizer.

Os outros? André André, do FC Porto; Gonçalo Paciência, da Académica; Rui Correia, do Nacional; Yazalde e João Novais, do Rio Ave; Xande Silva, do V. Guimarães; Filipe Ferreira, do Belenenses; e Afonso Taira, do Estoril.

Falamos com José Taira, antigo internacional português, sobre o caminho que o filho traça, agora. Aos 23 anos, está a realizar a melhor temporada da carreira. É titular indiscutível no Estoril e já se estreou a marcar na Liga, na receção ao Rio Ave, da oitava jornada.

«Fico satisfeito com o trajeto dele, porque os primeiros anos como sénior custaram-lhe muito. Teve de trabalhar muito. O mérito deste momento é todo dele. Foi muito abnegado, marcou o seu espaço e o seu estilo. E fez isso, não sei se sabe, enquanto termina o curso de Gestão. Para o pai é um orgulho, claro», destaca.

O antigo médio, que se destacou no Belenenses e nos espanhóis do Salamanca, entre outros, costuma falar de futebol com Afonso. E, sublinhe-se, de futebol: «Quando falamos não é tanto uma conversa de pai para filho, mas de uma pessoa que jogou futebol para outra que está a jogar.»

«Falamos de questões que escapam à vista dos menos conhecedores. Questões mais técnicas, mais táticas, de estratégia. Mais do que se jogou bem ou mal, é disso que falamos» explica, salientando que as conversas não visam crítica. «Ele tem capacidade de fazer autoanálise», sublinha.


O Salamanca de Taira

José Taira assiste ao sucesso do filho a uma distância que considera necessária. Mas rejubila, claro.

«Ver o filho marcar dá, naturalmente, uma sensação de contentamento. Sei que não é o mais importante na posição em que ele joga, nem costuma acontecer muitas vezes, mas é mais um sinal. Ele está a destacar-se pela qualidade de jogo e os golos realçam sempre os bons momentos», define.

O apelido ajuda ou prejudica no futebol?

O futebol, por vezes, torna-se ingrato e ser filho de um jogador, o que para muitos é visto como via aberta ou, no mínimo, facilitada, pode tornar-se um peso acrescido.

Hassan explica: «Todos os dias lhe digo que não pode acusar a pressão. Já lhe digo isto há muitos anos. Digo-lhe: esquece o pai, esquece quem é o pai e faz o teu trabalho. Se fizeres, vais conseguir. Quero que ele seja melhor do que eu.»

O marroquino lembra que há vários casos de «filhos de jogadores que conseguiram triunfar no futebol». E há, de facto. Paolo Maldini à cabeça, mas também Thiago Alcântara, Daley Blind ou até Kasper Schemeichel trilham os caminhos de uma carreira que, se não se equipa à dos pais, pelo menos não os envergonha.

Há, também, casos de discrepância evidente. Jordi Cruyff ou Edinho, filho de Pelé, nunca ficaram, sequer, perto de deixarem de ser vistos pelo apelido e não pelo nome.

«Sempre disse aos meus filhos que o apelido que levavam ia ter dois pesos e duas medidas», diz Taira. «Mas creio que fazer uma comparação é errado. Não se podem comparar épocas tão diferentes, o futebol mudou muito, está sempre a mudar», acrescenta.

E completa, sobre Afonso: « Tem umas condições brutais e tem uma vantagem em relação a mim: fez toda a formação num clube [Sporting] que o colocou num patamar alto e lhe abriu as portas das seleções. Tem já uma bagagem forte. Está num patamar que o pode levar a outros clubes e continua em evolução. O que eu desejo é que se sinta feliz a jogar.»

Em Portugal há ainda outros casos de talentos de segunda geração, mas que ainda não marcaram na Liga. Como Frederico Venâncio, que marcou no ano passado e já é uma referência no centro da defesa do V. Setúbal, ou até Mattheus, o médio do Estoril que é filho de Bebeto. Recentemente, deixou a nossa Liga, sem deixar pegada, Rivaldinho, filho de Rivaldo.

Quanto a Mohcine Hassan, o ponto de partida desta história, continuará, segundo o pai, a trilhar o seu caminho sem medo de comparações mas sob a alçada do ex-goleador.

«Falo com ele todos os dias. Ele anda muito contente. Quer sempre saber a minha opinião, quis logo saber o que achei do jogo, o que achei do golo. Ligo-lhe todos os dias para lhe dar conselhos», conta.

E encerra: «Não quero que ele seja o filho do Hassan, quero que construa o próprio nome. Eu fui o melhor marcador da Liga em Portugal, quero que ele supere. Ele sabe que vão sempre comparar o filho com o pai, por isso vai ter de trabalhar.»

Craques de segunda geração a marcar na Liga

André André, filho de António André



Também nesta 19ª jornada, André André fez o seu segundo golo na Liga 2015/16, ao serviço do FC Porto. Um golo que não é consensual: embora tenha rematado, a bola não entraria sem o ressalto nas costas de Salin. Mas a Liga atribuiu o golo ao médio portista que já tinha marcado no Clássico com o Benfica. Tem cinco em todas as competições, mas está ainda longe dos 13 que fez na época passada ao serviço do V. Guimarães. Um número igual à melhor época do pai, António André, no FC Porto. Marcou os mesmos 13 golos em 1986/87.

Gonçalo Paciência, filho de Domingos Paciência



Na primeira época fora do FC Porto, o filho de Domingos soma três golos, dois deles no campeonato e um na Taça de Portugal. Números ainda longe daqueles que o pai conseguiu numa carreira recheada. Em 1995/96 fez 25 na Liga e venceu o troféu para Melhor Marcador. Foi a última vez que um português o conseguiu.

Afonso Taira, filho de José Taira



Na segunda época na Liga principal, depois de anos interessantes no Atlético, Afonso Taira fez o primeiro golo. Foi na receção ao Rio Ave da oitava jornada, num jogo em que o seu Estoril empatou 2-2. O pai, José Taira, também ele um médio defensivo, nunca fez mais de dois golos numa época.

Rui Correia, filho de Manuel Correia



Manuel Correia marcou uma era no centro da defesa do Chaves no final da década de 80 e primeira metade dos anos 90. O filho, Rui, começa a tornar-se referência no centro da defesa do Nacional. O pai nunca fez mais de dois golos numa época. O filho já soma três, dois deles na Liga, nas receções a V. Setúbal e Marítimo.

João Novais, filho de Abílio Novais



Ano de estreia na Liga, depois de dar nas vistas no Leixões, para o filho do antigo médio que se destacou, essencialmente, no Salgueiros. E se o início foi difícil, nos últimos tempos tem mostrado qualidade e até foi o responsável pelo empate que ditou o afastamento de Julen Lopetegui do comando técnico do FC Porto. Já tinha marcado na receção ao Arouca. Abílio, no seu melhor ano (1996/97), fez nove golos pelo Salgueiros. Todos na Liga.

Yazalde, filho de Jaime Graça



Ainda que longe de outras época, Yazalde já fez dois golos este ano pelo Rio Ave, ambos numa fase madrugadora da época e em jornadas consecutivas. Na terceira, em Setúbal, e na quarta, na receção ao Sporting. O irmão, Jaime Pinto, já se estreou também na Liga, em Braga, nesta ronda 19. O pai, Jaime Graça, chegou a fazer oito golos pelo Rio Ave na temporada 1986/87. Números que Yazalde já superou: em 2010/11 foram 10, também com as cores do emblema vila-condense.

Xande Silva, filho de Quinzinho



A chegada de Sérgio Conceição abriu as portas do grupo a Xande Silva, que então jogava, essencialmente, na equipa B. Já foi utilizado em 12 jogos da Liga, três deles como titular, e marcou na receção ao Rio Ave. Tem apenas 18 anos e muito tempo pela frente para tentar chegar aos números do pai. Quinzinho fez oito golos no Rio Ave em 1997/98 e outros tantos no Desp. Aves em 2000/01.

Filipe Ferreira, filho de José Carlos



Na quarta época ao serviço do Belenenses, vai já com os melhores números de sempre a nível de golos marcados. São dois, na receção ao Boavista (o único golo do jogo) e em Vila do Conde, frente ao Rio Ave. O pai, José Carlos, que se destacou no Benfica, V. Guimarães ou Belenenses, tem como melhor registo quatro golos numa temporada, algo que conseguiu por duas vezes: 1997/98 ao serviço do Vitória e 1999/00 já com a camisola do clube do Restelo.

Mohcine Hassan, filho de Hassan Nader



Estreou-se apenas na 8ª jornada, só voltou a jogar na 11ª e depois na 15ª, sempre como suplente utilizado e sempre por escassos minutos. Nas últimas três jornadas jogou sempre e nesta 19ª coroou a primeira titularidade com o primeiro golo. Hassan Nader, em Portugal, tem um golo numa época como pior registo, em 1996/97, ao serviço do Benfica. Dois anos antes foi o melhor marcador do campeonato com 21.

[Artigo atualizado]