José Couceiro sempre o quis, mas só o teve depois de uma série de incidências pelas quais o Vitória Futebol Clube passou. A primeira das quais o triunfo sobre o Sporting na Taça da Liga, a consequente reação leonina e, por fim, a anuência do Benfica, que na véspera de perder em Setúbal fechou a cedência de João Carvalho aos sadinos.

Os encarnados não esperavam a derrota no Bonfim e, provavelmente, também não esperavam que aquele rapaz que passou 11 anos na Luz fosse fundamental para, na jornada 26, manter a equipa de Rui Vitória na liderança.

O golo marcado no Dragão teve consequências na tabela e poderá ter mudado o efeito mental para o clássico da próxima ronda. O que não muda é o facto de João Carvalho, vitoriano por empréstimo do Benfica, ser a figura da jornada.

Duas horas para treinar e mais duas para voltar

O futebol está-lhe nos genes. O pai de João foi futebolista da Académica de Coimbra. António José dos Santos Carvalho jogou na defesa da Briosa na década de 90, para depois terminar no clube da terra: o Sport Castanheira de Pera e Benfica. Destino? Talvez…

João Carvalho cedo chegou à formação encarnada. É, aliás, um «produto» quase todo made in Benfica.

«Joguei um ou dois anos antes de vir, jogava com um cartão de um colega meu, mais velho. Não podia ser inscrito. Um olheiro foi falar com os meus pais. No primeiro dia em que cheguei ao sintético, havia muita gente, não queria entrar e comecei a chorar.» João Carvalho, em entrevista à BTV, em novembro.

De Castanheira de Pera, assim mesmo sem acento, a Lisboa são cerca de 190 quilómetros. João e o pai, Tó Zé, fizeram-nos muitas vezes nos primeiros tempos.

«Duas horas para lá e duas horas para cá. Treinava, jantava no carro, chegava a casa à meia-noite/uma da manhã e no dia seguinte ia para a escola.»

O esforço compensou e João Carvalho assinou contrato profissional anos mais tarde. «Senti que a minha dedicação estava a ser bem vista pelo clube. Foi o melhor dia até agora da minha vida.» Em abril de 2015, terá tido outro, com a renovação do vínculo. Neste domingo, outro ainda, com o primeiro golo na I Liga e logo num estádio como o Dragão.

No dia em que renovou pelo Benfica, tal como Diogo Gonçalves; José Gomes assinou contrato profissional

«José Couceiro confia nele e tem o exemplo de João Mário»

O futebol é, provavelmente, a forma de expressão de excelência de João Carvalho. Raphael Guzzo partilhou o centro de estágios e a equipa B encarnada com o médio. Ao Maisfutebol atira uma quase certeza absoluta.

«Relativamente à personalidade, o João é um miúdo fechado e muito humilde. Com o tempo solta-se mais, mas creio que se falar com mais pessoas, todas vão dizer-lhe isso, que é um rapaz fechado», afirmou o médio do Reus, de Espanha.  

Da temporada passada, Guzzo passou meia com João Carvalho, mas o contacto com o jogador dos sadinos vem de há mais tempo. É assim que funciona no Seixal, garante. Guzzo aproveitou para explicar um pouco como é o crescimento na «fábrica» encarnada, na qual o nome de João Carvalho já era conhecido. Pelo menos, para Bernardo Silva.

«No centro de estágio vive-se em família, recordo perfeitamente que quando era miúdo, tinha uma grande amizade com o Nelson Oliveira, mesmo eu sendo iniciado. Nós éramos mais velhos, mas na altura da geração do João queríamos que se sentissem em casa. Há respeito pelos mais velhos, mas estamos ali todos para o mesmo e estamos todos com o mesmo sonho.»

Ora, depois da formação no Seixal, o médio de Castanheira de Pera viajou um pouco mais para sul e assentou à beira Sado. «Pedi o João Carvalho desde o início da época», dissera José Couceiro, após vencer, precisamente, o Benfica.

O internacional sub-21 português chegou à Liga através do Vitória, estreou-se aos 78 minutos na jornada 20, virou titular na ronda seguinte e nunca mais saiu do onze.

«Com a humildade que tem e qualidade que tem pode atingir outro patamar», comentou Guzzo, que argumenta essa subida de nível com outros factos.

«Tem um técnico que confia nele, e ainda para mais tem o exemplo do João Mário (ex-Sporting, agora Inter de Milão), que também trabalhou com o José Couceiro. O João Carvalho vai de encontro ao mesmo. Depois, tem a cabeça no sítio e não se vai deslumbrar.»

«É o destino, a estrelinha de campeão»

Para Raphael Guzzo, o empréstimo do médio «foi um salto no momento certo, porque quando um clube sente que o jogador já está há tempo a mais naquela realidade, mesmo tendo 19 anos, tem de ser dado esse passo».

A conjuntura sadina era aconselhável também. «O Benfica viu que esses seis meses seriam importantes para o João, o V. Setúbal já estava bastante tranquilo, e parece-me que foi um clube muito bom para ele evoluir com tranquilidade».

 

Grande entrega de toda a equipa!! Contente por ter ajudado com o meu primeiro golo na primeira liga 🙏🏼⚽️🔝 #30

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José Couceiro utilizou-o na esquerda frente ao FC Porto, mas tem colocado João Carvalho na posição que lhe é mais natural: médio-ofensivo, a organizar jogo.

«Ele é um número 10 puro, embora possa jogar nas alas por vezes», analisou Raphael Guzzo, uma observação coincidente com as opções que Couceiro tem tomado. «O João Carvalho percebe muito bem o jogo e é tecnicamente evoluído. Para mim é um 10 puro.» Como o era Pablo Aimar, ídolo do camisola 30 do Vitória, antigo 10 da Luz.

Porém, o argentino nunca marcou no Dragão, nem ao FC Porto. João Carvalho fê-lo pelo Vitória e ajudou a casa-mãe. Sobre isso, Guzzo afirmou que «é o destino, é estrelinha de campeão», mesmo que ela tenha brilhado um dia depois no Porto e não na véspera em Paços de Ferreira.