Tentem fazer conversa com um scouser. Se for vermelho por dentro, e cinco em cada seis são, é provável, muito provável, que pare de falar inesperadamente, de olhos esbugalhados, e comece a cantar, primeiro baixinho, depois cada vez mais confiante

We’ve got... Salah!

O eco acende toda a sala, como se de um musical se tratasse. Pint a meio na mão mais hábil, à frente, a dar o ritmo à cantoria, cada vez mais inflamada. 1, 2, 3...

Salah!

Mane Mane

And Bobby Firmino

(Já repararam que os nossos amigos não sabem dizer Firmino?)

But sold Coutinho

But that no matter at all actually

Coz we’ve got

Salah!

I just can’t believe

You left us for another club

I just can’t believe it’s true

But we’re not the Bitters

I know we’ll be alright

Jurgen Klopp will put us through

With Salah!

Têm razão. Uns com Messi, outros Cristiano. Há quem se apoie em Neymar. Hazard. De Bruyne. Griezmann. Ainda quem se queixe de não ter nada disso, e mesmo assim consiga sair para o trabalho todos os dias com um sorriso nos lábios.

But we’ve got... Salah!

Já sabemos, e não é coisa pouca.

O novo melhor jogador entre mortais, claramente abaixo dos outros dois, yin e yang eternos e intocáveis, cujos nomes nunca se dizem baixinho. Messi e Ronaldo.

Há algo obrigatório. Em Agosto começa de novo, e irá repetir-se sempre, enquanto tiver de provar que não é só uma ideia a curto prazo. Tem de ser. Salah tem de fazer dez anos disto, para sequer poder comparar-se. Dez, quinze anos. Se o conseguir então falamos.

Depois sim, venham cá ter comigo.

Neymar está lesionado. Este Chelsea não eleva ninguém ao topo, nem se deixa elevar por ninguém. O Atleti ainda se recupera por e para Simeone. O City é uma máquina colectiva, construída como puzzle de peças raras e debruadas a ouro, capaz de desconstruir-se e reconstruir-se em várias equipas diferentes, dependendo das ideias do seu treinador.

Coz we’ve got Salah!

Sim, e Salah é o remate em curva na diagonal da direita para dentro, ou a corrida paralela à linha, distribuindo daí passes e cruzamentos decisivos. É o virtuosismo em velocidade, o drible em progressão, o complemento da verticalidade de Mané e Firmino. É também ele explosão, mas sobretudo inteligência.

Acredita que é Messi. Tem esse direito mesmo que ainda esteja longe. Kloppo não lhe dirá menos que isso ao ouvido, antes de cada encontro. Talvez seja essa a injecção de adrenalina que lhe faltou tantas vezes em Londres.

É esse moral do tamanho do Egipto, essa soberba de Faraó, que o faz ir para cima do defesa como um atropelamento à espera de acontecer. Não há dúvida de que a Champions seria a coroa ideal. O ceptro para o mais entusiasmante jogador do ano.

Só que conquistá-la poderá ser ainda tão duro como chegar ao topo do Monte Sinai.

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«ERA CAPAZ DE VIVER NA BOMBONERA» é um espaço de crónica, publicado na MFTOTAL. O autor usa grafia pré-acordo ortográfico.

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