CAMINHOS DE PORTUGAL é uma rubrica do jornal Maisfutebol que visita passado e presente de determinado clube dos escalões não profissionais. Tantas vezes na sombra, este futebol em estado puro merecerá cada vez mais a nossa atenção. Percorra connosco estes CAMINHOS DE PORTUGAL.

SPORTING CLUBE DA VISTA ALEGRE – 2ª Divisão Distrital de Aveiro

A mais fina porcelana num clube eclético. No Sporting Clube de Vista Alegre é assim desde 1952. Há futebol, claro, mas também karaté. Para trás, sinal dos tempos, ficaram outras modalidades, mas nunca a associação umbilical entre empresa e grupo desportivo.

Na II Divisão do Campeonato Distrital de Aveiro, Série B, o Vista Alegre segue em primeiro e suplanta, por estes dias, o histórico Beira-Mar. Mais do que nunca, há entusiasmo e união em redor da instituição que transporta um mosaico de azulejos no equipamento principal.

Até nos trajes que enverga esta equipa é, de facto, distinta. Como a mais fina porcelana.
 

«O nosso projeto é ambicioso», avisa o presidente António Lourenço, no primeiro contacto com o MAISFUTEBOL. «Estamos no quarto ano do projeto da minha direção, movimentamos cerca de 220 atletas e temos um apoio significativo da Junta de Freguesia de São Salvador e do município de Ílhavo».

E a fábrica da Vista Alegre? Qual a real ligação entre a companhia, cuja origem remonta a 1824, e o Sporting que a representa nos relvados e pelados do distrital de Aveiro?

«Os estatutos do clube obrigam a que a cúpula da Assembleia Geral, do Conselho Fiscal e da Direção seja composta por funcionários do clube», esclarece António Lourenço, ele próprio empregado da Vista Alegre há 20 anos.

«Além disso, a empresa é a nossa maior patrocinadora. Por acaso, nenhum dos futebolistas do plantel sénior trabalha lá, mas vários técnicos das camadas jovens trabalham. Estamos a falar do maior empregador do concelho e a influência é enorme».

Os irrequietos Ultras Porcelana:



As curiosas – e bonitas! – camisolas do SC Vista Alegre foram criadas pelo departamento de marketing da empresa. E até a claque da equipa, que vai para todo o lado, foi buscar o nome à matéria-prima que reina na fábrica. Um grupo que torce semana após semana por uma equipa que jamais quebra.

«São os Ultras Porcelana, um grupo fantástico de jovens. Inicialmente jogávamos mesmo no campo de futebol da empresa, mas mudámo-nos para um campo municipal. Seja em que lado for, a nossa claque não nos falha. Somos o segundo clube desta divisão com mais adeptos, atrás do Beira-Mar», acrescenta António Lourenço, nesta visita guiada a um emblema fundado em março de 1952.

E quantos adeptos já movimentam os jogos do Sporting Clube da Vista Alegre? António Lourença fala em lotações entre «200 e 400 pessoas». «A exceção foi o jogo contra o Beira-Mar. A presença deles nesta série tem-nos dado visibilidade e nessa tarde – vitória dos aveirenses por 2-3 – o nosso campo estava completamente cheio. O campo e o parque de estacionamento».

O Beira-Mar tem feito bem a um campeonato quase anónimo, mas nem por isso intimida o SC Vista Alegre. Em primeiro lugar, o clube aposta claramente «na subida de divisão».

O jogo entre o Vista Alegre e o Beira-Mar:



«Temos analisado o nosso projeto ano a ano. Esta época o objetivo é claro: ascender à I Divisão Distrital. Se conseguirmos isso, teremos de reanalisar tudo, pois estamos sempre dependentes dos apoios».

Apoio significa dinheiro, claro, mas também disponibilidade total da parte dos elementos que compõem o plantel sénior. O Sporting Clube da Vista Alegre é um clube «amador com níveis de responsabilidade profissionais».

«Treinamos quatro vezes por semana. E não pagamos salários. Oferecemos prémios de jogo e pagamos despesas. Isto funciona, acima de tudo, por amor ao jogo e ao clube».

A fechar a conversa, a pergunta mais difícil. Afinal, o que significa Talé, a alcunha carinhosa do Sporting Clube da Vista Alegre? Tchan, tchan, tchan… E nem o próprio presidente do clube nos consegue elucidar.

«Também já perguntei a várias pessoas da empresa e do clube, mais antigas, e ninguém sabe. É um nome histórico, um dado adquirido entre nós, e vai continuar. Mesmo sem sabermos o que significa»