DESTINO: 80's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 80's.

«Faça favor, para Portugal estou sempre disponível, devo tudo o que tenho a Portugal e quero retribuir». Foi desta forma que o simpático Wando atendeu o Maisfutebol, em Brasília, para recordar alguns dos episódios mais marcantes dos nove anos em que passou pelo campeonato português. Deixou a sua marca no Sp. Braga, Benfica, V. Setúbal e Marítimo e as saudades são muitas, mas os primeiros tempos não foram fáceis para o então jovem Wando.

Chegou a Portugal no início da temporada de 1981/82, com apenas dezanove anos, proveniente da formação do Vasco da Gama, para representar o Sp. Braga. «Era um miúdo e para mim foi tudo novo. Eu achei que ia ficar perto de casa, porque ia para um país que tinha a mesma língua, mas afinal tinha mesmo um oceano pelo meio. Era tudo muito diferente, o clima, a comida, era um mundo novo para mim, mas fui muito bem recebido em Braga. Até hoje tenho amigos lá. Aproveito para mandar uma mensagem para o pessoal de Braga: juntem-se aí para fazermos uma sardinhada, estou morrendo de saudade», atirou logo a abrir.

A adaptação entre os minhotos foi rápida e não foi preciso muito tempo para, sob o comando de Juca, o jovem Wando começar a dar nas vistas e a conquistar o seu espaço na equipa. «Fui muito bem recebido, é tudo boa gente em Braga, ainda hoje quando vou lá é uma festa, todo o mundo se lembra de mim», recorda. Estreou-se em outubro de 1982 com uma vitória sobre o Sporting na Supertaça Cândido Oliveira (2-1). Os golos marcados ao Sporting seriam uma constante na sua carreira. Ainda no mesmo mês marcou o seu primeiro golo em Portugal na visita ao Estádio de Alvalade, num jogo em que os leões de António Oliveira golearam por 6-2. Na mesma época voltou a marcar ao Sporting, no antigo 1º de Maio, numa vitória por 3-0. «Eu era o terror do Sporting. Sempre que jogava contra eles marcava pelo menos um golo. No Benfica continuou assim, marcava sempre, até no famoso 7-1 fui eu que marquei», recorda.

No final da época, o Sp. Braga termina no sexto lugar, mas Wando já não era um desconhecido. Era o «Pélezinho» que abria caminho em velocidade pelo corredor, com estonteantes dribles com o pé esquerdo. No início da década de oitenta ainda não havia muitos brasileiros em Portugal e Wando encantava e dava cor ao cinzento futebol português. «Um brinca na areia» que era um espetáculo por si só. A segunda temporada, agora com Quinito ao comando, foi ainda melhor. Foi titular em todos os jogos do campeonato, marcou cinco golos, incluindo mais um no triunfo sobre o Sporting (2-1) no final da temporada.

Assobios na Luz

O Verão seguinte ia mudar a vida de Wando. Fernando Chalana, estrela do Benfica, fazia furor no Euro-1984, em França, e atraía a atenção dos «grandes» da Europa. O Bordéus chegou-se à frente com uma proposta irrecusável que permitiu ao Benfica concluir o terceiro anel no Estádio da Luz e o «pequeno genial» rumou ao Parc Lescure. As portas da Luz abriam-se de forma inesperada para Wando que chegava com a «missão impossível» de render o maior ídolo dos benfiquistas. Depois da estreia em Guimarães, frente ao Vizela (2-0), o jovem brasileiro é surpreendido na estreia no Estádio da Luz frente ao «seu» Sp. Braga.

Mal sobe ao relvado, é recebido por uma tremenda assobiadela. O tribunal da Luz não tinha aceite a saída de Chalana e rejeitava o seu substituto. «É verdade. Foi muito difícil. O Chalana era o maior ídolo português, o que é que eu podia fazer? Ele era o Cristiano Ronaldo daquela altura. Tive muitas dificuldades. Foi uma situação confrangedora», destacou. Valeu, na altura, o apoio incondicional do treinador, o húngaro Pal Csernai. «O primeiro ano foi muito complicado. O treinador ajudou-me muito, me deu muita moral e ia dizendo que ia acabar por dar a volta por cima». A verdade é que o treinador também passou a ser assobiado pelo «tribunal da Luz».

Com a ajuda dos companheiros, Wando conseguiu passar este período difícil e acabou por conquistar os adeptos. «Graças a Deus as coisas foram-se encaminhando no bom sentido. Fui ficando mais tranquilo, já não tinha aquela pressão do Chalana. As coisas também não estavam correndo bem para ele lá na França e isso tirou-me pressão», recorda.

Dos 5-0 aos 7-1, pelos pés de Wando

As coisas também não correram bem ao Benfica que acabou por perder a Supertaça e o campeonato para o FC Porto, mas Wando fecha a sua primeira temporada com 37 jogos e onze golos. Nessa primeira época ganha a Taça de Portugal, tal como nas duas seguintes, fazendo a «dobradinha» em 1986/87. Neste percurso, recupera a sua especial afeição por marcar golos ao Sporting.

Marca dois na goleada aos leões por 5-0, na Luz, nos quartos de final da Taça de Portugal e, na temporada seguinte, volta a marcar na histórica derrota dos 7-1 em Alvalade. «Esse foi um jogo muito estranho. Tínhamos uma grande equipa, mas sempre que atacávamos sofríamos um golo, não foi normal», recorda. Apesar do expressivo resultado, Wando considera que esse jogo foi decisivo para a «dobradinha» no final da época. «Sentimos que tínhamos de provar que aquele resultado não tinha sido normal. Queríamos mostrar isso para os adeptos e, no final da época, ganhámos duas vezes ao Sporting na mesma semana, no final do campeonato e no final da Taça, mas dessa vez não marquei», lembra.

A «paradinha» de Veloso

A temporada 1987/88 é a última de Wando no Benfica. Fernando Chalana regressa à Luz onde começa a despontar o jovem Pacheco. A concorrência aperta no flanco esquerdo, mas ainda assim, com Chalana limitado por muitas lesões, Wando faz 39 jogos. «Finalmente conheci o Chalana e até joguei alguns jogos com ele», recorda. A saída de Wando estava anunciada no final da época, mas o extremo brasileiro ainda joga na final da Taça dos Campeões, em Estugarda, no Neckarstadion, frente ao PSV Eindhoven.

A equipa holandesa, comandada por Gus Hiddink, era composta por vários internacionais que, no mês seguinte, acabariam por ser campeões da Europa com a «laranja mecânica». Num jogo com poucas oportunidades, Wando rendeu Rui Águas na segunda parte e ainda esteve muito perto de marcar. «Todo o mundo falou bem a meu respeito depois desse jogo. Fizemos um bom jogo e tive uma oportunidade para marcar», recorda, sem deixar de mencionar a referência histórica das «meias escorregadias». «Foi falta de experiência do roupeiro que levou material novo. As meias eram novas e as botas escorregavam. A gente não parava em pé de jeito nenhum».

Ao fim de 120 minutos, como se sabe, o jogo foi para a lotaria das grande penalidades. No final da primeira série, todos os jogadores escolhidos já tinham marcado. No início da nova série, Wando estava junto a Veloso e Álvaro Magalhães. Um dos três tinha de avançar. «É muito cruel, essa responsabilidade devia ser assumida pelo presidente do clube. Estava todo o mundo nervoso, ninguém queria marcar. Depois foi o Veloso, era o capitão e disse: vou fazer uma paradinha, esperar que ele salte para um lado e atiro para o outro». A estratégia era boa, mas Van Breukelen não se deixou enganar e defendeu. «O goleiro não se mexeu, ficou parado e o Veloso falhou», recorda Wando, revivendo o momento de terror.

Até ao final da temporada, Wando ainda fez três jogos, mas já sabia que não ia ficar. «Recebi um monte de propostas, mas fui emprestado ao V. Setúbal». Uma lesão impede Wando de brilhar no Bonfim, mas no ano seguinte volta a exibir o seu pé esquerdo no Marítimo ao longo de dois anos, antes de partir para uma última aventura na Turquia. Fez mais duas temporadas no Konyaspor antes de regressar ao Brasil para terminar a carreira no XV de Jaú, em São Paulo.

Hoje em dia, com 51 anos, Wando Bonfim vive em Brasília, sem nunca perder a ligação com o futebol. «Devo tudo o que tenho a Portugal. Você já veio no Brasil? Se quiser é só ligar que eu arranjo casa. Quero retribuir tudo o que ganhei em Portugal. Investi em alguns imóveis que vou alugando, mas também sou empresário de jogadores, ao nível da formação, aqui em Brasília e no Vasco», conta.

A ligação a Portugal também nunca se rompeu, por mais que não seja pelos muitos amigos que cá deixou. «Vou falando com o Rui Águas, estou sempre em contato com o Mozer, o Dito, João Cardozo, o Veloso, o Nunes. Nunca deixei de falar com o pessoal. Fomos um time vitorioso e isso a gente não esquece. Éramos muito unidos e sempre que vou a Portugal procuro estar com eles. Quero voltar, as saudades apertam». Cá te esperamos Wando, sem assobios.