PLAY é um espaço semanal de partilha, sugestão e crítica. O futebol espelhado no cinema, na música, na literatura. Outros mundos, o mesmo ponto de partida. Ideias soltas, filmes e livros que foram perdendo a vez na fila de espera. PLAY.

SLOW MOTION:

«RACE» - de Stephen Hopkins

Para começo de conversa, é importante deixar bem claro que a extraordinária história da vida de Jesse Owens merecia mais do que um filme apenas simpático.

Posto isto, vale a pena salientar alguns méritos da obra de Hopkins, realizador mais respeitado pelo trabalho na série 24 do que propriamente pelo brilhantismo alcançado na Sétima Arte.

A fita não permite, acima de tudo, concessões ao sensacionalismo, nem se encerra num relato frio e de ataque puro ao esgoto a céu aberto que foi o nazismo.

Antes, procura elevar a dimensão desportiva de Owens, ao mesmo tempo que relembra as suas limitações enquanto filho e marido. Um adúltero primário, a quem é fornecido um habeas corpus pela própria esposa numa fase inicial, lapso rapidamente corrigido.

Bem intencionado, embora simplista e pouco exigente, Race é competente no retrato composto sobre os Jogos Olímpicos de 1936: o estádio, a multidão e até as provas ganhas por Jesse Owens são convincentes e capazes de colocar o espetador na Berlim pré-II Guerra Mundial.

O resto, enfim, é História. Na verdade, quatro histórias, ou quatro lições, de como espezinhar os dejetos nazis através do Desporto. Jesse Owens e a sua vocação quase evangélica para correr e saltar recolhem a medalha de ouro nos 100 metros, 200 metros, 4x100 metros estafetas e salto em comprimento.

Para os monstros do Terceiro Reich engolirem em seco.

O jovem Stephan James encarna o inesquecível Jesse Owens – falecido em 1980 -, mas os aplausos mais exclamativos vão para os veteranos Jeremy Irons e William Hurt.

PS: The Beatles: Eight Days a Week – de Ron Howard

Paul, Ringo, George e John, os fabulosos de Liverpool. Ainda é possível contar algo de novo sobre a mais aclamada banda (desculpem, Rolling Stones) da história da música?

Ron Howard entendeu que sim. Tudo nos parece tremendamente familiar, mas há cenas inéditas e reais, recuperadas dos 60s e exibidas pela primeira vez a grandes audiências. O resto faz-se de canções eternas, companheiras e cúmplices nas vidas de muitos de nós.

McCartney e Starr participam no documentário através de entrevistas recentes, os saudosos Harrison e Lennon surgem em conversas gravadas no passado.

Ah, se o leitor for ao cinema ver este regresso divertido da Beatlemania, com enfoque no período entre 1963 e 1966, não se dê por satisfeito quando surgir o genérico final. Há surpresas deixadas para o fim.

VIRAR A PÁGINA

«O ANJO PORNOGRÁFICO» - de Ruy Castro

No Rio de Janeiro tive o privilégio de passar umas horas com a família de Nelson Rodrigues, jornalista, dramaturgo, artista das palavras, G-É-N-I-O.

A esposa, um dos filhos e uma das netas abriram-me a porta de casa e durante algumas horas passearam-me pelos convulsos corredores da sua vida.

Eu, já anteriormente seguidor da obra de Nelson, saí daquela apartamento na zona do Leme ainda mais ávido pelas suas frases, opiniões, visões e conhecimento.

Uma maneira perfeita de mergulhar neste universo tricolor – só o Fluminense é tricolor, não se esqueçam, os outros são só equipas com três cores – é devorar a biografia cuidadosamente pensada e erigida pelo também brilhante Ruy Castro.

Obrigatório. Até para adeptos do Flamengo.

SOUNDCHECK«SAUDADES DO GALINHO» - de Moraes Moreira

E por falar em Flamengo, esta é dedicada ao meu bom amigo João Cláudio, inseparável companheiro na odisseia do Maisfutebol nos Jogos Olímpicos.

«E agora como é que eu fico

nas tardes de domingo

Sem Zico no Maracanã?

Agora como é que eu me vingo

de toda derrota da vida

Se a cada gol do Flamengo

Eu me sentia um vencedor»

«PLAY» é um espaço de opinião/sugestão do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Pode indicar-lhe outros filmes, músicas e/ou livros através do e-mail pcunha@mediacapital.pt. Siga-o no Twitter.