Domingo à tarde é uma rubrica do Maisfutebol, que olha para o futebol português para lá da Liga e das primeiras páginas. Do Campeonato de Portugal aos Distritais, da Taça de Portugal aos campeonatos regionais, histórias de vida e futebol.

 

«Deixei de jogar aos 33 anos, mas ainda me sentia bem. Estava farto do que se passava nos jogos, que até tinham pancadaria. No estádio havia um relógio e eu pensava sempre: “ando eu aqui tão tarde, no meio da confusão, nem vejo os meus filhos crescer”»

O adeus ao futebol foi apenas um até já.

Ao pendurar as botas, Filipe Martins já tinha um caminho traçado. Um caminho que, esperava ele, o levasse bem longe.

Cinco anos passaram desde então e o antigo defesa é agora treinador.

Aos 38 anos, lidera uma das equipas sensação do Campeonato de Portugal, o Real Sport Clube, numa caminhada notável rumo à II Liga, o objetivo assumido desde o início da época.

O clube da Linha de Sintra terminou no 2.º lugar da Série G, a um ponto do Sacavenense, embora tivesse estado na frente durante muito tempo. Atualmente é líder na fase de subida na Zona Sul, a par do Praiense (18 pontos), fruto de uma recuperação incrível, que culminou com a vitória no reduto do então líder Fátima, na última jornada.

Pelo meio, claro, ainda fez a gracinha de eliminar da Taça de Portugal o Olhanense e também o Arouca, caindo frente ao Benfica.

Sim, são esses mesmos. É mesmo esse o mister, mas agora sem holofotes apontados.

«A nível mediático foi o ponto alto da época, claro, mas espero que não seja em termos absolutos. Fez-nos crescer a todos os níveis. O meu telemóvel até bloqueou na altura, tantas foram as mensagens. Todos pensavam que ia estar com medo (risos), mas foi o jogo que mais desfrutei até, porque não havia nada a perder»

Em conversa com o Maisfutebol, Filipe Martins recordou esse momento especial na ainda curta carreira. Logo na época de estreia teve oportunidade de defrontar um “grande” do futebol português.

Mas isso foi uma mera gota no oceano, por assim dizer.

Sempre a acelerar rumo ao sonho da subida

Enquanto jogador, Filipe Martins já tinha «a mania de ensinar os mais jovens», pelo que o bichinho do treino foi crescendo naturalmente, com o «incentivo» de Rui Gregório, que o orientou no Odivelas.

Resolveu tirar um curso de treinador e aventurou-se pelas camadas jovens. Foi campeão distrital no Belas, depois liderou os juvenis e os juniores do Real.

No início da época surgiu então o convite para orientar a equipa sénior.

Tive de ponderar um pouco. Por um lado era aquilo que sempre quis, por outro tinha uma vida estável, um emprego numa empresa de peças para automóveis, que pagava a tempo e horas. Vivi muitos anos no futebol e alguns clubes não pagavam. Mas deste desafio não tive medo»

Vinte e uma vitórias em 33 jogos realizados esta época pelo Real, um registo interessante para uma época de estreia que o próprio anteviu como difícil.

«Ao início pensei que pudesse haver alguma desconfiança. Também fui jogador e sei que um treinador que vem dos juniores pode não ser bem visto pelo grupo, mas senti uma química entre mim e o grupo logo na primeira palestra. Fomos construindo um espírito de grupo, uma dinâmica de vitória. São jovens talentosos e desejados por vários clubes, o que podia fomentar o egocentrismo, mas não, são humildes e têm vontade de trabalhar», indicou.

Diz que não conhece a receita do sucesso, mas poderá ter algo a ver com os ensinamentos passados pelos treinadores que teve ao longo da carreira. Fernando Santos, Jorge Jesus ou Jorge Simão foram alguns deles.

«Fui sugando as coisas boas de cada um, ao ponto de ter alguns tiques (risos). Não fui muito longe na minha carreira, mas de facto tive muito bons treinadores», explicou.

Filipe foi treinado por Fernando Santos e Jorge Jesus nos tempos do E. Amadora (foto: arquivo pessoal)

Ao mencionar-se o nome do agora selecionador, o antigo defesa lembrou-se de imediato de uma história engraçada, dos tempos no extinto Estrela da Amadora.

Às quartas-feiras tínhamos um treino especial, que era correr durante hora e meia à volta do campo, tipo treino militar, sem bola. O horário era fixo, mas um dia ele antecipou o treino 15 minutos. Como não sabia, cheguei atrasado pela primeira vez. Pedi-lhe desculpa e ele, com aquele ar sisudo, disse-me: “está bem, tens é duas voltas de atraso em relação aos outros”. Epá, corri tanto que, quando cheguei ao pelotão, já estava morto, não aguentei mais (risos)»

As recordações de outrora ainda estão bem presentes na memória, bem como os métodos usados por cada um dos treinadores que o orientaram. Apesar de de se rever em alguns, Filipe garante que «não gosta de imitar».

«Tenho a minha personalidade. Para mim os jogadores são todos iguais, não sei quanto ganham, nem quero saber. Só lhes peço para estarem preparados para jogar. De uma coisa não abdico: respeito o jogador, mas digo-lhe sempre a verdade na cara. Mesmo que fique lixado comigo naquele dia, mais tarde vai perceber. Esta profissão requer fazer escolhas difíceis e é preciso honestidade. Sei que demoro 30 segundos a adormecer todas as noites», atirou.

Muito embora tenha reconhecido que esta maneira de estar no futebol pode «trazer-lhe dissabores» um dia, o técnico considera que esta permite maior eficácia na assimilação da mensagem pelo grupo.

E se isso já foi útil esta época.

Uma “remontada” que deu que falar

Apesar da boa época do Real no Campeonato de Portugal, a fase final registou uma quebra de rendimento. Aparentemente foi algo «premeditado», uma vez que era preciso «gerir o grupo», segundo explicou o treinador.

Ainda assim, ninguém esperaria certamente um arranque tão conturbado na fase de subida.

Apontado como um dos favoritos, o Real conquistou apenas dois pontos nas quatro primeiras jornadas, resultado de dois empates e duas derrotas, o que os atirou para o fundo da classificação.

No entanto, quando muitos lhe traçavam um destino pouco feliz, a equipa partiu para uma remontada impressionante.

Seis jogos, cinco vitórias, um empate e, de novo, a liderança.

«Já muitos me perguntaram sobre isso, mas não há qualquer explicação. Sempre pedi para não mudarem uma vírgula no que tínhamos feito até então e para pensarmos jogo a jogo. O caminho que tínhamos feito ia também levar-nos à final. O clique foi a bola começar a entrar, pronto», justificou.

As vitórias trouxeram um novo alento à equipa, mas o puxão de orelhas também deve ter ajudado.

Sim, houve algum laxismo da nossa parte, mas foi um processo normal. Perdemos a dinâmica de vitória. Como já tínhamos os objetivos garantidos, começámos a lidar bem com a derrota e isso não é bom. Os jogadores tiveram de perceber que nada estava ganho ainda. Foi importante termos perdido alguns jogos, fê-los crescer e perceber que não é tudo um conto de fadas»

Um conto de fadas. Provavelmente seria essa a melhor palavra para descrever a época de estreia de Filipe à frente do Real, mas o técnico prefere chutar isso para canto, garantindo estar apenas «focado no objetivo da subida», quando faltam quatro jornadas para o "mata-mata" que decidirá o futuro da equipa.

Por enquanto vai preparando o caminho, como sempre fez, mesmo quando andava de chuteira calçada.

Agora procura tornar um sonho real.

«Tenho a ambição de treinar na I Liga. Não tem de ser hoje nem amanhã, mas sinto que tenho condições para tal. Às vezes encontro antigos treinadores e todos me dizem para estar preparado para as coisas más. Até agora tem-me corrido tudo bem, mas sei que um dia irei passar por complicações. Até o Mourinho já passou por elas. O futebol é isto, tem muita incerteza, mas dá adrenalina…e não consigo viver sem ela».

 

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