DESTINO: 90's é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias dessa década marcante do futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINO: 90's.

PAULINHO CÉSAR: FC Porto (1992/1993)

Número 16 nas costas, dragão ao peito. Olhos na baliza, corrida curta e o remate. A bola sai rasteira, ressalta na relva e entra no canto inferior direito de Silvino.

O FC Porto garante nesse pontapé de Paulinho César a Supertaça 1991/92.

9 de setembro de 1992 é, de resto, uma noite de sentimentos contraditórios para o antigo avançado. No Brasil, Paulinho é Mclaren; em Portugal, César.

«Entrei muito bem nesse jogo [aos 59 minutos, para o lugar de Semedo] e tive a sorte de marcar o penálti decisivo. Fui decisivo e o FC Porto ganhou esse troféu. Por ironia, e azar, sofri uma pancada no menisco e tive de ser operado. Parei mais de um mês e fiquei para trás.»

O Maisfutebol reencontra-o, 25 anos depois, na cidadezinha de São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Paulinho volta a ser Mclaren e é o treinador do Esporte Clube Taubaté.

Paulinho Santos nos festejos da Supertaça-92

Homem de emoções fortes, Paulo César Vieira Rosa quer saber como estão os antigos colegas. No fim de cada resposta às questões do nosso jornal, o inesquecível Paulinho César lança sempre nomes para a mesa. Não se acredita?

«Eu cheguei ao FC Porto a pedido do treinador Carlos Alberto Silva. Joguei no Santos, era um avançado credenciado e um jogador feito. Tinha 29 anos, já. Isso também comprometeu a minha afirmação nas Antas.»

«Olha, e o André? E o Jaime Magalhães? ‘Cara’, eles ajudaram-me muito.»

Pequena paragem. Recordemos a noite de glória de Paulinho César em Coimbra:

PAULINHO CÉSAR NO FC PORTO

. 1992/93. FC Porto, 16 jogos/1 golo (1º lugar)

TÍTULOS: 1 Liga Portuguesa e 1 Supertaça

Paulinho César começa bem no FC Porto. Faz dois golos na pré-temporada – torneio de Salamanca -, arranca uma boa exibição em Sevilha e é titular nos três primeiros jogos do Campeonato Nacional, ainda antes do advento da dupla Domingos/Kostadinov.

O problema no joelho e a telepatia revelada pelos avançados principais do FC Porto – sim, Domingos e Kostadinov – atira Paulinho para o banco ou para a bancada. Em novembro de 92 faz de cabeça o único golo no campeonato nacional [Gil Vicente, em Braga] e a 12 de maio de 93 despede-se em Chaves, com um cartão vermelho.

«Não era a primeira opção, mas entrei muitas vezes. O Carlos Alberto Silva conhecia-me e confiava em mim. Fui sempre muito bem tratado, o FC Porto é uma passagem marcante na minha vida.»

«E o Tozé, meu companheiro de quarto nas concentrações?»

Veja os dois golos de Paulinho César em Salamanca:

«Apaixonei-me pelo Mclaren do Senna num domingo de 1991»

Paulinho César é um nome desconhecido para os portistas mais jovens. De que tipo de avançado falamos? Tinha cabelo curto à frente, com umas leves repas, e comprido atrás. Isso podemos garantir.

«Diziam que era um cabelo à Chitãozinho e Xororó [duo sertanejo], mas eu queria era imitar o Conan, o Bárbaro», diz Paulinho César, a simpatia em pessoa.

«Bem, eu sempre fui um avançado de área, cabeceador e oportunista. No FC Porto eu era a ‘parede’ do Domingos e do Kostadinov. Fiz dupla com os dois. O Domingos era mais técnico, o Kostadinov mais rápido. Eu servia de apoio, segurava os centrais e tabelava com eles.»

Em cima: V. Baía, Zé Carlos, Semedo, Vlk, J. Costa e J. Pinto

Em baixo: Domingos, Rui Filipe, André, PAULINHO CÉSAR e J. Couto.

E a alcunha Mclaren? Tem alguma explicação?

«Sim, e sempre gostei dela, mas no FC Porto não pegou. Em 1991 eu era um nome importante no Santos e todos diziam que estava ‘a voar’ em campo, como o Mclaren do Ayrton Senna. Em 1991, o Senna fez a pole position em Interlagos e colocaram-me ao telefone com ele. Desejei-lhe boa sorte, disse que ele ia ganhar e ofereci-lhe uma camisola do Santos.»

Ayrton, corintiano fanático, acaba por recusar gentilmente o presente.

«Ele ganhou a corrida e telefonou-me no dia a seguir, a dizer que eu lhe tinha dado sorte. Nesse domingo apaixonei-me pelo Mclaren dele e a alcunha ficou.»

«E o Bino? Meu comparsa, fizemos um grande jogo em Eindhoven, na Liga dos Campeões.»

«’Não te metas nisso, é só bichas para lá’»

Estádio do Bessa, novembro, frio e ainda mais chuva. O FC Porto está a perder – golo de Marlon Brandão – e Kostadinov carrega no acelerador pela direita. Ganha espaço no relvado encharcado, cruza rasteiro e a bola atravessa a área axadrezada, à espera de uma finalização fácil.

Embalado de trás, Paulinho César é o primeiro a chegar e nas bancadas grita-se ‘G-O-L-O’. Mas não. Não há golo, não há festa. Apenas um homem, de cabelo ‘à Conan’, estatelado no relvado.

«O futebol é assim… eu tinha voltado da cirurgia, precisava de um golo e falhei de baliza aberta. Senti que morri um pouco no FC Porto depois dessa jogada. Estava chuva, o defesa veio de carrinho e eu fui a medo à bola.»

«E o João Pinto, onde trabalha? Esse era um líder que mexia com o grupo todo. E o Semedo? Boa gente, muito reservado, como o Bandeirinha.»

O falhanço (incrível) de Paulinho César no Bessa (2m20s):

Chega de memórias negativas. Paulinho, a gargalhada de Paulinho, merece outro tom. Merece recordar «as bichas do Reinaldo Teles».

Como diz?

«Eu e a minha esposa queríamos ir com os nossos filhos a um shopping. Perguntei ao senhor Reinaldo onde era e ele responde ‘não te metas nisso, é só bichas para lá’. Bem, no Brasil a palavra ‘bicha’ só tem um significado. Assumi que ele se referia a homossexuais, mas não. Estava a falar de filas, havia muitas filas (risos e mais risos).»

Paulinho vivia na rua do Vale Formoso, passeava bastante com Vítor Baía, ia para Espinho e Matosinhos, tinha uma vida boa. Mas do que ele gostava mesmo era dos almoços de equipa.

«No campo não havia moleza, se eu estivesse mais parado, caramba, ouvia logo um berro. Mas à mesa… eram todos brincalhões. Bebíamos um bom vinho, ficávamos a conversar e saíamos todos de lá mais amigos, como irmãos. Era assim que criávamos um vínculo inquebrável.»

Por Paulinho a conversa não acaba. E até de Valente, o guarda-redes suplente de Baía, o brasileiro se lembra.

«O Valente, que personagem! Eu dizia sempre que queria ter a vida dele. ‘Valente, você senta-se no banquinho, nunca tem de jogar e no final do mês tem lá o dinheirinho!’». E há mais gargalhadas.

Paulinho César não vinga no FC Porto. Sai sem conquistar os adeptos. Sem mágoa, sem ruído. «O senhor Bobby Robson chegou, falou comigo, mas eu precisava de jogar. Já tinha duas convocações para a seleção do Brasil e no Porto continuaria a ser suplente do Domingos e do Kostadinov. Voltei ao Brasil em busca da felicidade.»

Paulinho César num treino recente do Taubaté

Internacional, Portuguesa, Cruzeiro, Fluminense, Atlético Mineiro… Paulinho ‘Mclaren’ César joga quase até aos 40 anos. Agora é treinador, ambicioso, e até pretende fazer um estágio em Portugal.

Voltaremos a vê-lo por cá? «Tenho a licença internacional e uma carreira de dez anos. O José Guilherme – atual selecionador nacional de Sub17 – encontrou-se comigo num curso e tem-me ajudado muito. Todos os conceitos, práticos e académicos. Espero trabalhar na Europa brevemente.»

«E o Timofte? Eu era grande amigo dele. Saudades, muitas saudades.»

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